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Pesquisa no Abismo

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Minha Arte

Mensageiro Obscuro é um escritor performático que possui um espetáculo solo no qual recita textos utilizando vestuários exóticos, maquiagens e outros recursos criados por ele. Escreve prosas poéticas, poesias, contos, crônicas, pensamentos, frases e experimenta outras formas de escrita.

Seus principais estilos e temas em suas obras são: aventura fantástica, realismo fantástico, autobiografia, onirismo, ultra-romantismo, simbolismo, drama, horror e suspense, ocultismo e misticismo, mitologias, filosofias, surrealismo, belicismo, natureza, comportamento, erotismo e humor.

domingo, 20 de novembro de 2011

Baseado em Desejos Reais

Você reclama quando minha cabeleira se mistura com a sua, mas no fundo gosta quando nossos fios se mesclam nos abraços quase agressivos, quando meus lábios roçam sua face delicada e seu pescoço convidativo e sei que isso te provoca. Da última vez que nos encontramos ficamos com os corpos colados e você disse que sou como um urso faminto com boca úmida e olhar animalesco, então, ao te olhar assim, minha boca gulosa se molha por eu ter fome e sede além de sua compreensão, isso é natural, faz parte do meu ser.

Lembro que você se arrepiou ao observar meu sorriso misterioso dizendo que te causava uma sensação esquisita, mas cogito saber que sensação é essa... poderia ser um medo de viver algo etéreo, diferente da habitual constância materialista que chama de “relacionamento sério” ou algo do tipo. É certo que sou muito racional e pouco sentimental como bem me conhece, mas na sua presença deixo minha humanidade de lado e abandono-me no piloto automático, instintivo, ligado nos 220w. Com essa alta voltagem tento cativar seus pensamentos, sentimentos, carícias e gerando confissões. Quero que tenhamos uma sintonia secreta, quero algo só nosso e que pelas sensibilidades de nossos corpos tenhamos ligações difíceis de traduzir... nessas vibrações contínuas sigo por sendas complexas.

Por hora, tudo é memória e eu sigo trilhas distantes demais da compreensão do comum, onde não ouso pronunciar as traduções do que se passa em mim; minhas mãos seguem correndo por canetas e papéis tentando espremer o sumo das facetas do meu interior, estou procurando mais cargas expressivas entre construções e escombros no meu universo interior e isso não é fácil, é lá onde fico quando quero e por quanto tempo quiser sem a entrada de forasteiros.

Sou vivente na interseção entre a realidade e fantasia tentando expressar o que penso e sinto nas nuances de tantas variações. Assim como um fantasma eu sumo e apareço, viajando entre realidade e fantasia, dessa forma fundo-me nas nuances da matéria e éter. Desejo captar saberes e prazeres que me tirem daqui por agora, o tédio me consome e uma aventura inesperada mataria por completo esse verme parasita que insiste em me devorar por dentro: o maldito tédio.

Sinto-me um tanto decadente, quero e vou mais além, não em físico no momento, falta-me dinheiro e um tanto de coragem para sair de madrugada e ir onde quero, seria até complicado ir para tais locais, moro longe demais deles e a viagem já seria por demais tediosa. Caso existisse o poder de teleporte eu poderia tomar um banho relaxante e me vestir para me teleportar para onde quero, eu iria para onde batesse vontade, sem enfrentar o trânsito, pedágios, dinheiro de passagem, violência, poluição sonora, fumaça de cigarro, gente que fala cuspindo, gente idiota e outras coisas. Certamente eu apreciaria essas viagens solitárias espectrais, isolando-me onde fosse escuro e gelado como o abismo que tanto aparece em meus sonhos, como montanhas e cavernas a ser aventuradas por quem tem um peito nu sem medo do frio dos perigos.

Eu estaria em casa quando adentrasse um espaço natural totalmente isolado das minhas rotinas, me manteria longe dessa vida provinciana que me enoja e nesses inusitados momentos eu sentiria um sono cansado somado com tédio. Bem, você sabe que sou aventureiro do conhecimento, que os saberes e prazeres me atraem e cativam e com tantos fascínios sou figura solta, que vivo em você uma nova aventura repleta de acontecimentos que por vezes fogem ao controle, mas é assim que gosto de viver nessa gangorra de inspirações nas quais me afundo como noutras coisas da vida: sem grilhões e raízes. Então não diga nada quando meu corpo falar o que quer de você, apenas aceite ou negue, estou preparado para ambas as decisões, então não fale, simplesmente faça intensamente... a vida é curta, mocinha.
Saiba agora: só consigo amar desapegado sem cobranças, ciúmes, possessividade, loucura e perturbações, assim vivo, assim amo... só quero outros amores doces, a vida já é por suficiente amarga em sua dura realidade.

Devemos buscar amor e poder em nós mesmos, pois ter amor e poder em coisas e pessoas é só um meio de usar muletas para não tombar no próprio fracasso, por isso eu te amo, mas sem o apego que tantos insistem em ter ao amar e viver. É dessa forma que mostro pelo corpo e pelas palavras o quanto te desejo e quero bem. Quando eu sentir qualquer amarra sua vou me soltar como um escapista experiente, não por temor do cárcere, mas por ser rebelde o suficiente para viver o egocentrismo de fazer e ser apenas o que quero, assim sou e assim continuarei a ser. Entendo que não posso cobrar que ninguém tente entender a intensidade e sutileza de meus mistérios e segredos, assim como de outras tantas coisas, então caso queira me encontrar estarei me aventurando por vários cantos desse mundo deixando minhas pegadas metamórficas e talvez eu volte com mais umas cicatrizes como recordações.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2010.

Foto: Gangorra encontrada no Google Imagens.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um Disparo

Quando nada mais faz sentido o fim parece ser covardia e egoísmo, mas é apenas libertação da rotina de acordar e mover. Viver tornou-se algo insípido nesse mundo acinzentado, meu corpo dói sem causa aparente. Faço minhas últimas ações, desistindo do pensamento torpe de registrar uma carta de despedida, então vou para o quarto no qual tudo está preparado.

A vida e a morte brincam numa gangorra como duas crianças agitadas enquanto o tambor do revólver é preenchido com apenas uma munição. Minhas dores são emaranhadas da azia de existir e pela fome doentia de apagar-me de vez. Um disparo de metal contra o céu da boca jorra rubro encharcando paredes após o estampido que findou uma existência obsoleta.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2011.

Foto: Revólver invertido encontrado no Google Imagens sem referências disponíveis.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Vibração da Alegria

A poderosa energia da vida
entrou gentil e agradável,
trazendo brilhos e riqueza
de autoconfiança e coragem
para superar obstáculos.

O íntimo radia em escalas,
enquanto o tempo virou seiva
nutrindo a maturidade
a fim de libertar risos
antes tão inibidos.

Chegou a vibração da alegria,
deixando portas e janelas
totalmente escancaradas
aguardando a invasão
de realizações pessoais.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2011.

Foto: "Joy Vibrations" de Freydoon Rassouli.
Página do artista: Rassouli

domingo, 21 de agosto de 2011

Doppelgänger

Besta lendária e maldita, desgraça caminhante, invadia a essência dos vivos para seu prazer e copiava minha forma para destruir meu nome! Ser macabro e amorfo, pela forma que confundia meus amigos eu estraçalharia sua carne e ossos. Sem rosto e personalidade próprios ele me copiava até nos detalhes, simulava minhas habilidades e poderes parcamente. A vida do sósia tinha de terminar, eu o livraria do fardo existencial. Solucionaria seu problema com violência pois minha boca não seria o bastante.

Esse fardo de identidade dismorfa deveria cessar com os meus ataques. Quis destruir sua forma inumana libertando esse mundo de sua presença. Desejei-o como oponente em uma batalha, não mais veria seu desrespeito, não mais ouviria suas zombarias. Outras perturbações eram menores, seu sangue seria devorado pelo solo naquele instante.

Fui destemido ao enfrentar meu inimigo, minha existência estava abalada, pelo invejoso e cruel doppelgänger! O copiador das entranhas subterrâneas, o pesadelo dos reflexos distorcidos. Tivemos uma grande batalha física e mística, tamanho duelo foi delicioso ao revelar que sou o verdadeiro Mensageiro Obscuro. Nem tudo podia ser copiado e assim venci ao decapitar quem nunca foi alguém. Venci a batalha, mais um monstro foi derrotado e o Mundo Onírico ficou um pouco mais habitável para criaturas como eu.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2007.


-- Glossário --

Doppelgänger = É uma criatura mitológica de lendas germânicas que podia imitar a forma física, voz e jeito do humano copiado. Lendas contam que o doppelgänger é um humanóide metamorfo que só pensa em si mesmo, possui poderes mentais moderados mas eficazes para manter seu disfarce quando assume a forma de alguém após matar a identidade original. Várias lendas giram em torno desse ser que podia ser também uma versão de personalidade oposta a do copiado, surgindo de alguma forma misteriosa para tomar seu lugar na sociedade. O nome "doppelgänger" se originou da fusão das palavras alemãs: "doppel" (significa duplo ou duplicata) e "gänger" (andante, ambulante ou que vaga).


Foto: "Doppelgänger" por Danny Licul.
Página da artista: Danny Licul

domingo, 7 de agosto de 2011

Medalhas

No octógono bélico
lutamos tecnicamente
testando nossos limites
e ao sangrar com dor
recebemos aplausos.

Duas armas vivas atacam-se
com socos, chutes, cabeçadas,
cotoveladas, joelhadas, torções,
encontrões, projeções,
reversões e imobilizações.

Usamos bloqueios, esquivas
e aparamos golpes
rangendo os dentes
enquanto observam-nos.

Somos feras na jaula
com cicatrizes gravadas
como nobres medalhas
sob nossas peles.

- Mensageiro Obscuro.
Junho/2011.

Foto: Stephan Bonnar vs. Krzysztof Soszynski, lutadores de UFC (Ultimate Fight Championship) em combate.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Amizade Colorida

Quando nos tocamos tanto
por sorrisos e olhares,
colamos nosso corpos
quase sem segundas intenções.

Nossa bela sintonia
cria algo muito íntimo,
onde experimento nuances
de diversas cores vivas.

Então, com essas tintas
fazemos um degradê
de suaves e profundos
desenhos em nossa tela.

Na amizade colorida,
somos pintores nus
sem tradições tolas
que nos fariam sofrer.

- Mensageiro Obscuro.
Junho/2011.

Foto: "HD Multi Colored Lines" por Darkdragon15.
Portal do artista: Darkdragon15

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Antítese Humana

Perturbei-me com a cientista
maldita que testava-me
com aprimoramentos sintéticos
aplicando-me drogas pesadas.

Vivi num labirinto de confusões
onde eu não era parte de nada,
com um número serial tatuado
para identificarem meu propósito.

Rebelei-me de vez
utilizando meu poder genético
para quebrar minha jaula
em uma fuga desesperada.

Roubei um traje especial
e corri por vários terrenos,
somente fixando moradia
nas mutações intelectuais.

Sou um híbrido, uma peça solta,
um nômade açoitado pela vida,
uma antítese humana moldada
para ser arma biológica.

- Mensageiro Obscuro.
Junho/2011.

Foto: Código genético encontrado no Google Imagens

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Jogo Enfadonho

Trocamos vários sorrisos e olhares
flertando à distância pela parede de vidro
que nos une e separa,
então rabiscamos em nossas cabeças
um enigma sobre quem realmente
somos e o que viveremos.

Movemos peças num xadrez
interpretando personagens
como numa peça teatral,
trajando máscaras e capas
num baile onde os outros
são apenas bonecos.

Entrei em seu jogo enfadonho
então você embaralha as cartas,
eu as corto, aposto minhas fichas
e até blefo para quebrar sua banca.

Não temo o que a vida nos reserva
mas resta saber se você tem coragem
de se despir dessa armadura
para me encarar.

- Mensageiro Obscuro.
Maio/2011. 

Foto: "The Wish" de Theodor Von Holst, 1841.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nudez

Tentei calcular sem sucesso
e confinei-me numa cela gélida
onde chacoalhava desesperada
uma fera chamada libido.
Nas nuances do suave e bestial
aderimos aos nossos desejos,
desatando das prisões
para encontrar nosso refúgio.

Entrelaçados e agitados
ignoramos tudo e todos,
encaixando nossas peças
num jogo de movimentos,
no qual o clímax revelava
duas formas de nudez.

- Mensageiro Obscuro.
Abril/2011.

Foto: Modelo da grife Madeleine Chemise com lingerie e máscara pelo site de lingerie Allure Lingerie.
Portal da grife: Allure Lingerie

sábado, 26 de março de 2011

Sorriso Convidativo

         Eu vivia mais um clássico dia de tédio dominical, meus amigos estavam com suas namoradas ou descansavam diante das drogas midiáticas, por isso não os chamei para que me acompanhassem em mais uma aventura; como era de costume esse seria um passeio noturno solitário para matar o tédio. Eu me sentia um lixo e não revelaria isso a ninguém, pois certas coisas são tão minhas que minha boca não pode explicar. Mataria o tédio ou ele me mataria por dentro, essa era minha sentença, por conta disso me arrumei com as melhores roupas e perfume para um passeio casual; peguei minha carteira com umas pratas, chaves, caneta e papel e fui andando pelas ruas naquela noite. Após caminhar a pé encontrei um inferninho de pouca luz, decoração retrô, mesas com algumas pessoas variadas e mulheres que pareciam esperar um convite para conversa. E era um dos poucos homens no local, para minha felicidade eu teria menos concorrentes caso tentasse me aproximar delas, mas não queria conversar com ninguém, talvez não ainda. Fui recebido por uma linda e simpática balconista que apresentou-me o bar, disse-me que o microfone era livre para artistas; e eu nem pensava mais em produzir artes.
       Como eu já me encontrava condenado a ser demitido de uma latrina profissional fui abraçar o Diabo travestido de bebida alcoólica, os meses anteriores foram sofridos no trabalho e por um raro momento eu nem mesmo sabia o que queria para mim. Resolvi beber solitário do lado de fora do bar, tentando avistar estrelas e mantendo-me isolado, queria até andar mais e deitar numa grama para observar as belezas noturnas, mas lá fiquei. Avistei várias mulheres com diferentes belezas e umas nem tão agraciadas pela natureza. Não quis me dirigir a nenhuma delas, notei olhares e leves sorrisos, mas eu nem estava com clima de pronunciar qualquer coisa, queria apenas beber e talvez pensar em algo que me relaxasse. Pensei seriamente em me abrir mais para conhecer novas pessoas, mas cadê o estímulo que vem de dentro? Talvez a noite ainda reservasse algo especial para mim.

          Resolvi entrar no bar e sentei em uma das várias mesas vazias, bebi a curtos goles saboreando uma cerveja, logo uns músicos amadores talentosos se apresentaram e assisti suas apresentações, no pequeno palco sombrio, existiam umas máscaras envelhecidas perto do teto e luzes fracas por detrás delas. Surgiu uma moça do nada quando virei o rosto para o lado, ela estava vestida com chinelos pretos, saia cigana vermelha, blusa decotada preta solta na pele, e tinha pulseiras, brincos e bolsa em estilo hippie; era de baixa estatura com pele clara, cabelos pretos ondulados até os ombros, olhos castanho escuros e uma boca com sorriso fascinante; ela passou perto de minha mesa, deu um sorriso que mesclava inocência e luxúria e seguiu até o microfone. A pequenina foi ao palco e cantou músicas nacionais e estrangeiras famosas sobre amores decadentes, mulheres cativando homens e outras coisas românticas sugestivas em MPB, blues, jazz e rock progressivo.
         Cantou com uma certa técnica e muita emoção em sua doce voz que variava do soprano ao contralto e nas névoas de cigarros e charutos daquele bar eu fui embalado pelo seu canto sedutor. Sorria discretamente para minha direção enquanto cantava e pensei que não era comigo, mas eu era o único homem na posição de seu sorriso, então sorri. Fui recompensado com um sorriso completo com dentes e olhos brilhando; ela mal sabia que eu tinha uma grande atração por cantoras, era como se ela soubesse como me cativar. Pensei "mocinha, não faz assim que você me leva no bico", virei o rosto para disfarçar meu interesse por ela e acabei minha primeira garrafa de cerveja barata. Ela andou devagar desviando das mesas e cadeiras, pediu uma cadeira, disse a ela que levasse as cadeiras que quisesse, então sorriu para mim, desistiu das cadeiras e sentou-se perto de mim dizendo estar solitária e interessada em conhecer novas pessoas.

          Não sou vítima do amor romântico, mas por aqueles minutos eu só queria ilusões, pois a realidade era drástica demais para que eu me concentrasse nela. Sentou-se colada ao meu corpo e pedi a balconista bonitona uma garrafa de vinho tinto bem doce acabando por sacrificar todas as cervejas baratas que compraria. Li o rótulo daquela garrafa fingindo ser algo inédito e pedi mais um copo para a hippie que bebeu comigo sem pestanejar, a mesma era baixinha, talvez tivesse pouco mais que um metro e meio e pés por volta do tamanho trinta e quatro. Conversamos assuntos inteligentes e divertidos regados a álcool, depois bebemos uma garrafa de vodka paga por ela que me rasgava a garganta mas valia a pena pela companhia.
         A hippie me perguntou algo que não lembro, quando virei o rosto para respondê-la fui interrompido por um beijo na boca; nem tive tempo de pensar, foi súbito. Ela me abraçou de lado pelas costelas, paramos de nos beijar e ela permaneceu fortemente abraçada a mim. Quase tive um torcicolo para beijá-la pela nossa diferença de altura, mas ignorei a dor e continuei abraçado fazendo-lhe carinho na nuca e cabelos, assim está vamos calados apreciando aqueles momentos. Conversamos ainda mais e não nos apresentamos por nossos nomes parecerem obsoletos. Pegamos nossas garrafas de vodka e vinho e caminhamos abraçados bebendo no gargalo como se nos conhecêssemos há tempos. Entre um gole e outro, mais beijos e abraços apertados surgiam e os minutos pareciam passar mais rápido.

         Deitamos num gramado mais afastado na madrugada e observamos estrelas, falando coisas intelectuais e bobagens, já estávamos arrastando a voz pela embriaguez. Aqueles momentos foram tão profundos e gostosos parecia até uma piada do suposto destino, pois eu era imã de mulheres problemáticas. Então ela me deu um bilhete fechado e me fez prometer que eu só abriria quando chegasse em casa, aceitei a carta com curiosidade, mas fui fiel ao compromisso pedido por ela. Depois de várias horas juntos nos despedimos calorosamente com abraços fortes e beijos selvagens com mordidas, perguntei se a encontraria novamente, lembro de sua voz arrastada dizendo que ela me buscaria para comemorar meu aniversário mais tarde. Brindamos o aniversário dela com o resto de bebida que tínhamos, ela bebeu tudo num só gole. Várias horas depois eu acordei e li o bilhete que estava todo amassado dentro de minha carteira, continha um endereço de um cemitério na cidade vizinha com o horário de 16h e com um beijo em batom rosa claro como assinatura.
          Almocei e me arrumei ainda com um pouco de ressaca; era uma tarde nublada e cheguei ao cemitério no horário marcado, fiquei esperando por muitos minutos até que tive uma curiosidade por observar a beleza dos túmulos e mausoléus. Notei duas garrafas por trás de um arranjo de flores, em um túmulo todo colorido, provavelmente era de alguém que morreu jovem. Aproximei-me e removi um vaso com flores mortas da frente da lápide e percebi que eram as garrafas que a hippie e eu bebemos na madrugada, logo consegui ver a lápide agora descoberta e encontrei a foto da moça com aquele sorriso convidativo e os dizeres "Camila Arlequim Vinhedo. Nascimento: 20 de março de 1940 - Falecimento: 21 de março de 1964. Uma vida de emoções fortes que foi prematuramente interrompida". Fiquei triste pela morte dela e pensei se haveria um próximo encontro ainda naquele dia. Dessa vez eu tinha me engalfinhado com um fantasma hippie, já me relacionei com várias mulheres loucas, mas ter romance com uma mulher que já morreu é novidade para mim... realmente a lei de Murphy me persegue.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2011.

Foto: Isis Valverde. Postei essa foto por achar o rosto e sorriso dessa atriz lindos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Entre Livros e Armas

Por estudos e pesquisas
viajei em minha mente,
subi degraus em mim
e segui rumo ao meu abismo
como um ser onírico.
Assumindo forma e nome,
revelados em fantasias
no mundo dos sonhos.

Aprofundei-me no corredor
nas largas passagens,
em trajetórias perante
mistérios e enigmas.
No espaço-tempo vibratório
vivo aventuras maravilhosas
nos achados e perdidos
distantes do palpável.

Cheguei ao meu abismo pessoal,
território muito abstrato
de histórias mescladas
em realismo fantástico,
vivo realidade e fantasia.

Sou aventureiro do conhecimento,
e híbrido metamórfico,
montado como esfera e elipse,
triângulo e quadrado
expresso-me por símbolos.

Entre livros e armas
absorvo conhecimentos
e prazeres profundos,
produzindo e reformulando
o que sou e quem sou.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2009.

Foto: Quarto do V na Galeria Sombria do filme "V de Vingança" (V For Vendetta), 2006.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os Prazeres Solitários

Tenho tendência a me isolar, minha família por várias vezes insistia para que eu me entrosasse com gente da minha idade, mas na infância e adolescência eu não tinha interesse em contatos e julgava que meu mundo era muito distante da mentalidade do pessoal da minha faixa etária. Pensei que ser jovem era péssimo por falta de poder, prestígio, imponência, confiabilidade e tantas coisas que geralmente são alcançadas na fase adulta por algumas pessoas. Com o passar do tempo passei a encontrar pessoas interessantes que regulavam de idade comigo, então o tempo revelou que as pessoas têm um prazo de validade na minha vida. Essa entrada e saída de contatos sociais e a durabilidade das relações envolve muitos fatores e realmente os filósofos, cientistas e outros pensantes não erraram ao dizer que o comportamento humano é um enigma imenso e indecifrável. Aprendi que quando todos vão embora ou sigo meu rumo solitário só resta comigo o conteúdo desenvolvido com elas. É bom ser solitário sem raízes e grilhões que me prendam a pessoas e território, por isso amo desapegado de forma talvez mais racional, lógica, organizada e metódica em tantas realidades distorcidas e distantes do entendimento desse plano, e não sei amar de outra forma.

Amo de forma diferente, e é fundamental que a individualidade e privacidade de meu estilo de vida sejam valorizadas e respeitadas e esse é um trabalho só meu e de mais ninguém. A constância só me faz enjoar de qualquer pessoa ou lugar, é como se meu espírito fosse nômade e tudo ao meu redor precisasse ser mudado. Por mais que exista amor mútuo, é cansativo vivenciar a rotina depois de uns meses, eu certamente não sirvo para ser marido e pai e isso não é defeito, os maiores defeitos são os que nos ferem, o que fere outras pessoas pode ser mera questão interpretativa. Não consigo amar sem ter saudades, por isso considero a distância interessante e saudável para produzir assuntos para conversar quando existirem reencontros com pessoas que aprecio. Gosto de me aventurar pelos tantos mundos nos quais eu possa voltar para contar meus acontecimentos e se estiver tão próximo em todos os momentos perderei o prazer do reencontro que é um momento tão gostoso em nossa existência tão efêmera.

Para apreciar os mundos misteriosos e secretos de prazeres solitários é preciso ser introvertido, a criatividade se faz necessária para nos divertir desde que também tenhamos uma mentalidade avançada para ir além do senso comum. Esse aprofundamento pessoal de vasculhar seu próprio universo interior em busca de mistérios e segredos é tarefa árdua para poucos, muito poucos capazes de viver com o resultado de tamanha aventura. Aqueles que voltarem da caverna platônica de seu universo individual serão dotados de personalidade própria, incompreendidos por não mais estar sob o domínio do senso comum. Alguns dos prazeres solitários mais interessantes são: estudar e pesquisar sua própria personalidade conhecendo seus pontos positivos e negativos; produzir intelectualmente; desenvolver individualidade; criar convicções e limites; amar-se e respeitar-se. Dentre tantos prazeres solitários que descobri e desenvolvi esses são os maiores que conheço, mas outros introvertidos podem ter alcançado diferentes benefícios em suas jornadas íntimas.

É importante estar com a cabeça preparada para lidar com a solidão, perdas, fracassos, mortes e tantas outras coisas que colocam terror no interior de qualquer indivíduo, e se eu disser que foi e será fácil lidar com toda essa negatividade perpétua serei um hipócrita e demagogo de sangue sujo. Os sofrimentos desnecessários devem ser evitados, por outras vezes quando sábios os sofrimentos nos fazem perceber que existem dores que nos projetam para a evolução, e há quem diga que o sofrimento faz crescer, eu comprovo a veracidade dessa afirmativa, por isso não nutro esperanças. Os caminhos solitários são fascinantes, são jornadas únicas traçadas pelos interessados em explorar novos mundos dentro de si mesmos, onde realidades colidem, a paz e guerra mentais mesclam-se, realidade e fantasia convergem em interseções oníricas nas quais os filtros mentais separarão a possível veracidade e dessa forma firmamos nossa introversão capaz de nos levar e trazer de volta da zona crepuscular do fundo de nosso ser .

- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2011.

Foto: Logotipo da série de TV "Além da Imaginação" (The Twilight Zone, 1953-1964) criada e apresentada por Rod Serling.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Troféu Surreal

Esmurrei um padre pegando sua idolatrada cestinha transbordando de fé verde, vandalizei o quadro vermelho do ditador gigolô com anarquia preta, também destruí os cabos transmissores daquela emissora televisiva e ainda arranquei umas máscaras sangrantes rindo copiosamente.

Au, Au, ou... ou! Chutei a poltrona, manquei feio. Onomatopéias...

O arame farpado prendeu e rasgou um idiota que insistia em babar fezes enquanto resmungava ferido e amedrontado no quintal. Eu não tenho pena, não tenho mesmo. Que se exploda meu cinismo e sujeira moral, assumo mesmo: te desci a porrada!

Te amarrei para assistir sua desgraça, solei em meu baixo elétrico chorando e gritando desesperadamente e duas cordas grossas de metal arrebentaram cortando seu rosto.

Scarrf! Escarrei uma goma grossa e visceral que te encapuzou nessa podreira toda. Cuspi, sim senhor e foi fodido, você quase se sufocou no meu catarro.

Bati palmas e gargalhei do teu medo, pois te odeio, é puro sadismo meu. Pausa para meu riso! Eu quero rir, cacete! Ha, ha, he, he. Satisfeito!

Posso falar mais alto? Posso sim! Nenhum babaca vai me impedir, não podem te ouvir gritar! Eu tenho o megafone e seus ouvidos vão estourar com minha histeria!

Pingue, escorra nesse show desgraçado onde gerarei insanidade com tanta vodka na idéia, vou colocar a culpa nessa cachaça. Tá, eu sei que não é cachaça, trepe com o gargalo!

Eu mato e torturo mesmo, eu te torturei e matarei mesmo na insônia voraz que me prostitui nessa merda fedida. Qual é a tua? Diz pra mim!

Só na minha cabeça você existe. Pare de chorar, é o fim!

Engulo risonho a chave para minha fuga, fico trêmulo com minha confissão amassada na mão, então rasgo o chão para longe do meu rastro rubro. Eles chegarão para nos recolher, mas não se preocupe, você não foi escondido, sua cabeça está nessa mão e já finquei teu corpo como troféu no portão de casa. Enrolei eles  no telefone por meia hora dando um prejuízo, e agora eles querem me exibir e já estou devidamente trajado para isso.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2010.

Foto: "Bloody Trophy", troféu feito de sangue humano e sangue animal por Thyra Hilden e Diaz.
Portal da artista: Thyra Hilden

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Romance Arriscado

Mesmo que estejamos fisicamente distantes estarei emocionalmente próximo,  sei que não sou o mais romântico dos seres e talvez eu não tenha as palavras certas para lhe cativar o entendimento de parte do que se passa em mim, não tenho domínio dessa empatia. Desejo-te pelos meus sentidos  e pensamentos que voam pelas doces e amargas nuvens que engulo durante minhas jornadas, simultaneamente enquanto estou em sua presença. Fingiremos que o tempo parou, que não temos expectativas, que somos inocentes descobrindo o amor pela primeira vez, assim seguiremos, ignorando a inconveniente existência de obstáculos entre nós.

Nesse tempo restante assistiremos o pôr do sol e dormiremos antes que ele se erga novamente, celebrando nossos momentos passageiros como se fossem os últimos. Num encontro entre o etéreo e o material negaremos a cobrança de certezas nessa vida tão incerta, onde  mora a efemeridade existencial que tanto nos fere, ainda nos proporciona prazeres na persistência da convicção. Sejamos então corajosos para nos afundar nessa experiência na qual a virtualidade e realidade revelam nosso romance arriscado, que de tão incógnito nos fascina e envolve.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2010.

Foto:  Cena do filme "Asas do Desejo" (Wings of Desire) de 1987.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sabor da Guerra

O rubro sabor da guerra
está em meus lábios,
teu medo virou banquete.

Tua agonia sustenta
meu desejo de caça,
estou acima de tua sombra.

Observo teus movimentos
e logo conhecerás meu poder
em rasgar-lhe a carne.

Sou o terror que corre
enquanto teus ossos quebram,
tu esfriarás em minha lança.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2009.

Foto: "Crusades - The Massacre of Antioch" por Gustave Doré.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Serenata Mortuária

O silêncio era a existência de leves murmúrios de folhas secas nas noites silenciosas, os sussurros misturavam-se à escuridão, fazendo o vento frio ao ouvido passar de um lado ao outro. A paz era firme naquele bosque gélido, animais fugiram assustados sem nenhum motivo aparente, algo estava perto, o que era eu não sabia. Pensei no ápice de minha solidão naquele local misterioso sobre onde estariam os amáveis brilhos das luzes e por qual razão o céu tão escuro não me revelava a intensa prata lunar. Que segredos guardavam esse lugar pelo qual caminhei? Eu filosofava amando aquela beleza tão sombria, aqueles encantos tão marcantes que me tornavam parte daquele local de uma forma inexplicável. Queria conhecer mais, queria ser parte daquele solo, flora, fauna, vento, água e tantas outras coisas que compunham o cenário de uma beleza noturna.

Pensei e mais perguntas e dúvidas vieram junto com o medo, senti uma baforada quente ao pescoço e vi um vulto correr veloz como um fantasma afoito, seu barulho cessou, voltei ao meu caminho, um tanto assustado, mas ainda curioso em sair daquela mata. Inesperadamente fui arrancado do chão e sucumbindo ao pânico fui arrastado árvore acima... meu pescoço foi rasgado, senti-me escoando em jorros, lentamente uma fera sugava meu sangue. Fui atacado por um vampiro ou demônio? Não importava. Fui mais uma nota nessa serenata mortuária, novamente veio o silêncio da noite.

- Mensageiro Obscuro.
Outubro/2006.

Foto: "Death as a Cutthroat" de Alfred Rethel (1851).

domingo, 27 de junho de 2010

Incógnitas da Personagem

Erguemos nosso pequeno império
com valores tão intensos,
fixos como cicatrizes fundas
rabiscadas como lembrete.

Vivi doces enganações sensoriais
em seu paraíso tão secreto,
onde a realidade se revelava
a partir da sombra da dúvida.

Minha caneta trêmula correu,
garrafas geladas reluziam o litoral
acompanhando-me no breve luto,
a fortaleza ruiu aos meus ouvidos.

Descobri incógnitas da personagem,
ela virou uma página passada,
novas lágrimas não cairão,
pela quebra da máscara que amei.

- Mensageiro Obscuro.
Janeiro/2009.

Foto: Imagem sem referências cedida por minha amiga Anaphylaxxya.
Blog da Anaphylaxxya: Em Busca da Risada Perfeita

terça-feira, 22 de junho de 2010

Turbilhão de Emoções

Sou um emaranhado de sentimentos, uma mistura de ações e reações; tantas dúvidas entre tantas certezas fizeram a colcha de retalhos que de tão mesclada virou algo incógnito. O peão gira como minhas emoções nessa roleta russa existencial, logo caminho e até corro entre tantos rodopios insanos nessa espiral. Sigo essa aleatoriedade, completamente impetuoso e empírico nesses breves momentos de minha curta existência. Vivo momentos nos quais os instintos afloram hibridamente embebidos em fortes palpitações interiores, capazes de me atirar como uma flecha rumo ao alvo de experiências desconhecidas. A contínua roleta de prazeres e dores gira tão ativa em mim, gira tão ensandecida que por vezes me entorpeço nas escalas dessa energia trôpega.

Sinto aos poucos o descobrimento mais profundo do amor, ódio, alegria, tristeza, perdão, rancor, paz, guerra, otimismo, pessimismo, antecipação, paciência, serenidade, agitação, êxtase, terror e tantas outras nuances que espalham-se no fundo de minha mente. Vivo e persisto entregando-me a esse vício de conhecer diferentes coisas, e arrisco experimentar tantas emoções que saltam de mim tão ávidas por sua revelação. Da decadência ao apogeu eu me entrego nos dias e noites dessa efemeridade, então não morrerei com o amargo fel da inércia escorrendo pela boca, pois me aprofundo nas reticências da continuidade.

Esta é a vida, melhor ou pior não pode ser, pois este ato de ser falho e rebelde, nada mais é do que parte da minha realidade em ser um turbilhão de emoções. Então abro-me nesse espetáculo solo onde aprofundo-me no vazio de onde retorno preenchido pelo alvoroço das transformações.

- Mensageiro Obscuro.
2004.

Foto: "A Natureza das Emoções", trabalho científico do psicólogo pós-doutor (phD) licenciado Steven J. Chen.
Página do cientista: Steven J. Chen

domingo, 20 de junho de 2010

Rastejante Maldito

Faminto em profunda decadência
e miséria rasteja o trôpego,
em sua desgraçada vida
o indigente apenas existe.

Farejava dor e putrefação,
ao mastigar restos e carniça
nomeado mordazmente:
Rastejante Maldito.

Rejeitado com chorume nas veias
sua carne repuxada sustentava
uma pele cadavérica
que sorria doentemente.

Distante de nossos sentidos
a fantasmagórica criatura
desejava uma vida verdadeira
mas só levou migalhas e surras.

Morreu! Um sem-número de cabeças
observaram seus restos mortais
negando que sua origem
é o mesmo ventre nos pariu.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2010.

Foto: "Escolhas" por William A. R. Ferreira.
Portal do artista: Will Artes

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Nossas Memórias

Lembro de um banquete leve para dois,
sabores sensitivos e afrodisíacos,
a malícia de nossas faces marcantes,
bocas provocantes e corpos quentes.
Nos trajávamos com fantasias,
desejoso a abracei intensamente,
o cheiro e calor me excitaram,
seus pêlos arrepiaram
enquanto te agarrei.

Mascarada e coberta deitou-se
em meu divã enquanto a analisava
para descobrir os encantos
um pequeno corpo libidinoso,
que lentamente se despia
provocando-me com seus lábios.

Na longa e extasiante noite
chocolates derretiam aos beijos,
nossas peles atritavam-se
e atingimos o apogeu do prazer.
Acabou-se tudo, mas lembrarei
Que essas são nossas memórias...

- Mensageiro Obscuro.
Abril/2008.

Foto: Foto romântica sem referências encontradas. Adquirida no Google Imagens.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Missão Preciosa

Cadavérico e envolto em mortalhas,
ele empunhou sua foice necrótica
e montou seu cavalo fantasma.

Da interseção de luzes e sombras,
sons e silêncio mesclavam-se
anunciando sua nobre chegada.

Exterminou centenas de vidas
traçando a tênue passagem
da matéria ao espectro.

Então o ceifador sinistro sorriu,
ao cumprir sua missão preciosa
naquele conflito degradante.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2009.

Foto: "Death on The Pale Horse" por Gustave Doré.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Troca de Mundos

PRIMEIRO ATO - O MUNDO DE ZILLIUM.
Em um planeta chamado Zillium várias raças inteligentes existiam, incluindo a raça omanur, composta por humanóides de peles, cabelos e olhos de cores variadas, sendo donos de poderes físicos e místicos exclusivos. O céu verde claro de Zillium entardecia mostrando suas duas luas: a minúscula e rosada Arumá e a azulada e grande Riunokô. Então, viajando pelos ares um filósofo aventureiro omanur chamado Durganara voava veloz, o vento batia em sua longa cabeleira cacheada azul com mechas roxas, seu rosto de pele muito branca e lisa gelava com a ventania, enquanto sentia o peso de seus dois grandes livros místicos na mochila presa às costas. Durganara sorria ao sentir a pressão da velocidade de voo de Nitz, seu dragão branco entediado e introvertido com um espesso bigode em sua face alongada; seu corpo era esguio com  dois pares de patas fortes e longas, com garras curvas prateadas; suas asas membranosas eram imensas com grossas membranas e sua cauda continha escamas afiadas em forma de leme. Voando pelas tão conhecidas terras eles observavam cidades e aldeias pequenas, montanhas nevadas com picos imensos, abismos sobre as planícies formando cânions, vulcões inativos e densas florestas, aquelas lindas paisagens cativavam quem as percebesse, logo sua parada estava próxima, desceria no castelo Kágura que era conhecido por ter dois imensos leques sedosos próximos à porta principal.

Durganara encontraria com seu velho amigo Eldritch, então pousou com seu dragão e desceu em um só salto contra o chão, suas pernas e botas fortes suportaram o impacto facilmente. Respirou fundo, arrumou seus cabelos, puxou sua capa e seguiu rumo ao grande portão, Nitz olhava e resmungava para que não demorasse pois estava faminto e caçaria uns krentz pelas fazendas próximas dali.

- Reikt! Quero encontrar o sábio Eldritch, ele me convidou para vir a Kágura, pois ele quer falar comigo. - Durganara sorria para o guarda Valdef, um jovem militar e grande apreciador de seus livros.
- Reikt para o senhor também! É um prazer tê-lo aqui. - Valdef deu um soco duplo fraco contra as duas mãos de Durganara que retribuiu o cumprimento, sorriram e o guarda o guiou pelo grande saguão sobre um imenso tapete verde e paredes de pedra escura. O visitante entrou em um elevador prateado a vapor, controlado por um goblin desajeitado e simpático chamado Chumerim, ele era  careca de baixa estatura como sua espécie, tinha pele verde escura, olhos amarelos pequenos, orelhas pontudas, uma boca grande com dentes pontudos e usava um uniforme preto.

- Murzam! Durga, você veio... vou lhe contar para que te chamei aqui, como bem sabe não largo os prazeres de minha introversão a não ser em casos realmente importantes. - Eldritch usava seu típico traje verde escuro com capa e um chapéu elegante e alto. Estava sentado em uma cadeira luxuosa de madeira, com as mãos sobre uma grande mesa de madeira com vários livros e pergaminhos velhos, poções, pós, pastas, incensos, varinhas, cajados e jóias nos quais desenvolvia suas pesquisas místicas.

O senhor Eldritch tinha 180 ciclos, o equivalente a metade em anos humanos, mas com aparência era a de um homem bem conservado de 45 anos de estatura mediana, pele morena escura, cabelos grisalhos ondulados e muito curtos, olhos castanho escuros e nariz comprido; já Durgana tinha seus 60 ciclos, o equivalente a 30 anos humanos com aparência de uns 16 anos. Os omanur eram a raça dominante em quase todas as áreas conhecidas e habitadas de Zillium, menos em imensas áreas misteriosas e virgens onde quase nunca nenhum homem ou mulher da raça retornou. O sábio contou sobre a mais curiosa descoberta de suas décadas de estudos e pesquisas: a existência de um mundo totalmente com uma única raça inteligente capaz dos atos mais cruéis e idiotas possíveis, com população colossal e repelta de problemas; com a ausência de criaturas inteligentes portadoras de poderes mágicos; onde existem religiões e uns seres chamados de "deuses"; fauna e flora diferenciados e agredidos pela raça dominante; e tecnologias avançadas completamente distantes do que se conhece de Zillium.

Eldritch nomeou tal mundo como "Umanir" e seus habitantes dominantes por "umanirtas", ele estava radiante, segurava os ombros do seu amigo alto e robusto enquanto falava. O aventureiro filósofo puxou um doce estrelado fosforescente de uma mesa ao lado e o comeu, as migalhas brilhavam sobre o tecido brilhoso e colante de suas vestes. Ele sorriu concordando com a missão e logo foi levado a uma sala especial no laboratório, onde Durganara vestiu um cinturão metálico prateado, enquanto isso Eldritch colocava um mochilão com equipamentos em um baú acoplado a uma grande cadeira, nela havia uma armadura metálica que estava aberta. Durganara sentou-se no artefato e esperou novas instruções do sábio inventor.

- Levei décadas para construir esse artefato que nomeie por Transferidor Essencial. Nosso mundo é limitado e talvez essa sua viagem possa nos trazer mais conhecimentos úteis, assim talvez solucionaremos nossos problemas que são mínimos comparados aos deles. Poderemos até ajudar o povo de Umanir tornando-os mais evoluídos. - Durganara ficou quieto enquanto Nitz esgueirou seu pescoço longo para a janela do laboratório-biblioteca de Eldritch e fez perguntas, obtendo respostas ficou triste por não poder ir ao curioso mundo de Umanir. Nitz despediu-se do seu amigo e voou pelos céus rumo a sua caverna gelada, que era conhecida por ter árvores imensas das quais jorravam cervejas e vinhos durante todas as semanas, por lá ele ficaria incomunicável manipulando livros e pergaminhos com seu poder mental de telecinésia, quando sentisse fome ele passaria por mais umas fazendas, sempre caçando um ou dois krentz por semana.

- Meu amigo, só confio em você para essa missão. Já sou um tanto maduro e cansado demais para encarar tamanhos pensamentos e emoções. No Transmissor Essencial, você alcançará um caminho mais longo e pesado do que conquistei ao entrar nesse artefato. Selecionei diversos equipamentos para sua viagem, creio que você enfrentará diversas coisas em Umanir. Registre esses conhecimentos e experiências para nós. - Após essa conversa Eldritch fechou a máscara da armadura, acessou um painel e recitou versos de conexão astral. Logo o corpo de Durganara vibrava com sons, luzes, frio e calor, sua viagem se iniciou para uma passagem dentro dos sonhos de alguém daquele mundo.

SEGUNDO ATO - VIAGEM DE DURGANARA À TERRA.
Minutos após, na Terra, o mundo nomeado como Umanir enfrentava guerras, ditaduras, mudanças político-econômicas, crises financeiras, corrupção, crimes diversos, degradação ambiental e tantos outros problemas no ano de 1964. Nesse mundo doente vivia um adolescente brasileiro localizado na cidade do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro no Brasil. Seu nome era Valentino, um rapaz sonhador de 16 anos, leitor compulsivo de livros de fantasia e bastante introvertido. Ele queria muito que o mundo mudasse e por vezes se imaginava conhecendo outros mundos distantes da realidade da Terra. Sua mentalidade de mundo era pessimista, decadente, sofrida, fria, e desesperançosa; em seu semblante era notável tamanha

Em uma noite de sonhos Valentino se imaginou em Zillium, de alguma maneira chegou àquele mundo em forma de um fantasma. Poucos espíritos humanos viajaram oniricamente até Zillium. - Somente os mais fantasiosos dos humanos conseguiriam passar para aquele mundo - onde apenas alguns momentos de sonhos poderiam horas ou dias em vivência. Uma luz branca e forte saiu por baixo de sua cama, então um mochilão preto e grosso foi arremessado ao meio do quarto, logo após, Durganara também foi empurrado pela luz com a cabeça contra o mochilão; o mesmo saiu rapidamente da cama e começou a falar seu idioma; ao notar que Valentino não o entendia colocou uma tiara exótica e fina na cabeça e começou a falar em português enquanto ouvia o rapaz traduzido simultaneamente em omanurano, seu idioma natal.

- Saudações, umanirta! Sou Durganara Lumurines, vim do planeta Zillium e preciso conhecer esse mundo. Vim em paz e peço que oculte minha presença nesse plano. Seu sonho serviu de ponte para minha vinda a esse mundo. - Durganara estava tenso, não conhecia aquele tipo de quarto repleto de objetos desconhecidos, tudo era muito curioso, incluindo o rapaz não dormir com fitas roxas nos pulsos como era costume de seu povo. Explicou mais detalhes e após longas conversas optou em mudar sua aparência, então usou seu cinturão para alterar a forma, textura e cores de seu corpo e também mudou seus trajes. Valentino chocou-se com tudo aquilo, mas instigado pela curiosidade não conseguiu dormir e continuou sua conversa em tom baixo com o filósofo aventureiro, assim trocando diversas informações úteis, com isso Durganara usou um artefato que o fazia mudar a cor dos cabelos e olhos, assim como alterou a forma de seus trajes para ficar parecido com um terráqueo.

O jovem humano preparou um lanche, mas Durganara estranhou a comida de seu anfitrião ao rejeitar todos os cereais cozidos e carnes, só comendo verduras, legumes e frutas cruas com condimentos diversos, água açucarada com pitadas leves de sal. No dia seguinte ambos resolveram sair, Durganara estranhava os militares nas ruas, a barulhada de carros e motos, ruas sujas e quebradas, assim como tantas outras coisas aberrantes para um zilliano, incluindo os boatos de violência urbana e repressão de censura controlada pela ditadura militar. Através da tiara comunicadora ele gravava relatórios sobre o planeta, quando ficava solitário fazia anotações em uma tela fina e maleável, era uma espécie de pergaminho plástico mágico que saía por cima de seu cinturão e ficava em pé no ar enquanto ele escrevia, utilizando uma caneta flutuante e sem tinta. Realmente era um artefato exótico e muito útil.

Após vários dias de passeio pela Terra foi possível que Durganara conhecesse várias coisas, ele até conseguiu ler diariamente vários livros humanos, utilizando-se de um óculos especial de tradução simultânea saído de seu cinturão. Valentino queria usar o cinturão para se maravilhar com tantas possibilidades, até que seu novo amigo Durganara fez uma proposta ousada para que eles trocassem de lugar; o alienígena usaria poderes mágicos para enganar os sentidos dos pais de Valentino para que ele seguisse para Zillium, o rapaz aceitou e logo Durganara criou uma magia no chão do quarto do amigo utilizando giz de cores variadas, pedras, braseiro, um cajado, pós metálicos, palavras mágicas e algumas gotas de sangue de Valentino, conseguindo ativar um portal pela parede que sugou a cadeira onde o mesmo estava sentado. O jovem humano estava ansioso para conhecer Zillium, levou consigo alguns dos artefatos de Durganara e logo chegou ao laboratório-biblioteca de Eldritch em Kágura.


TERCEIRO ATO - VALENTINO VIAJA À FANTÁSTICA ZILLIUM.
Finalmente Valentino chegou a Zillium, aparecendo dentro do Transferidor Essencial, quando falou dentro da armadura Chumerim o recebeu, abriu o artefato e tirou-o de lá facilmente. Falaram gestualmente, então o rapaz usou uma tiara tradutora que lhe fora dada pelo seu amigo alienígena. O sábio saiu por uma porta próxima que dava para a biblioteca, ele chegou até Valentino, conversou com ele um tanto desconfiado e entregou-lhe uma carta de Durganara, ela estava em forma de um minúsculo cubo do tamanho da falange de um dedo polegar humano. Eldritch a colocou sobre a mesa e pediu que ela se abrisse, então o cubo se desmontou em um grande pergaminho retangular com cerca de meio metro e assim o sábio conheceu relatórios de seu amigo e os transcreveu para seus arquivos de estudos e pesquisas sobre o novo mundo.

Meses se passaram em Zillium, com isso Valentino treinou conhecimentos teóricos variados sob a tutela do sábio Eldritch e se empenhou em escrever as maravilhas daquele mundo; até o dragão resmungão Nitz conversou com ele, a princípio a desconfiança era mútua, mas depois o jovem conseguiu montar em sua cela e teve a experiência marcante de voar nas costas de um dragão; treinou um pouco de artes marciais em um templo localizado em uma montanha voadora; comeu doces que brotavam de vários arbustos e bebeu sucos e bebidas alcoólicas que saíam de árvores; falou com fadas, gnomos, duendes e até brincou de mímica com um fantasma brincalhão. Aquele mundo era realmente fantástico e livre, diferente da ditadura ferrenha e assassina de seu Brasil do golpe militar.

Enquanto isso, na Terra seu amigo Durganara estudava muito conseguindo aprender e ensinar facilmente, estabeleceu alguns contatos superficiais, conseguiu um emprego como técnico em eletrônica e com isso conseguiu pagar uma casa para si, forjou documentos com nome e números falsos e iniciou um trabalho de incitar nas pessoas sentimentos de liberdade, fraternidade, respeito e companheirismo entre tantas outras coisas; assim como também falava demais sobre ecologia, humanismo, ética, justiça e tantas outras coisas profundas e muito avançadas para a maioria das pessoas; Durganara até julgava medidas para mudar aquele mundo, falava sobre planejamento familiar e controle natal, métodos contraceptivos, legalização do aborto, apologia ao Estado laico, estudos sobre ateísmo e agnosticismo, estilos alternativos de vida e demais assuntos polêmicos que eram tabus na época.

Com tantas diferenças ideológicas ele foi considerado herege e ateu para a Igreja Católica, tão dominante no Brasil; assim como foi considerado anarquista, rebelde, revolucionário e subversivo para o governo militar que caçava opositores ao sistema vigente. Utilizando-se de documentos falsos Durganara criou para si a identidade de Hugo Tavares e também usava o pseudônimo Voz Rebelde com a qual divulgava seus ideais para universitários através de jornais clandestinos, certamente Durganara foi caçado pelo DOPS e fugiu ileso graças aos seus artefatos, pois não conseguia ter facilidade para fazer magias no planeta Terra onde a magia não é forte.

Os pais de Valentino o procuravam muito e já perdiam as esperanças que o filho estivesse vivo em algum lugar. Passaram-se quatro anos na Terra e oito anos em Zillium e Durganara já estava entediado e perturbado pelas coisas horrendas que conheceu na Terra, queria voltar para sua terra natal o quanto antes, até para evitar ser morto pela polícia torturadora da ditadura que estava cada vez mais poderosa e perigosa. Enquanto isso em Zillium, Valentino não mais se importava em voltar para seu planeta, já amava o novo mundo acima de tudo. Esse amor pela fantasia de um mundo mais simples passava até por cima da amizade intensa com Durganara.


QUARTO ATO - A DESILUSÃO NO BRASIL DITATORIAL DE 1968.
O filósofo aventureiro havia perdido todo o encanto pelo mundo dos humanos, pela primeira vez em sua vida começou a ter sentimentos decadentes, teve tristeza profunda, então sabia que só tinha uma chance de voltar a Zillium e era trocando de lugar com Valentino, assim ele voltaria ao seu mundo e continuaria sua vida pacata de estudos e aventuras bem mais leves que as tão perigosas aventuras terráqueas. Ele preparou ingredientes para a magia chamada Troca de Mundos, sendo que era uma magia muito poderosa e perigosa que poucos aprenderiam a preparar corretamente.

Durganara esperou uma noite de lua cheia do ano para montar sua passagem para Zillium, conferiu detalhes astronômicos e astrológicos, avaliou equipamentos de precisão e com seu cinturão foi possível começar a perceber um pequeno portal se abrir na parede desenhada. Seu cinturão apresentava sinais de falha, no decorrer dos últimos meses, até os cristais do artefato brilhavam menos, tudo por conta da incompatibilidade com a energia do planeta Terra que não recarregava corretamente seus equipamentos nos últimos meses daquele ano de 1968. Dentro de seu quarto em um bairro isolado do centro da cidade o filósofo aventureiro tentou expandir e manipular a energia mágica, no exato momento que estava com todos os aparatos para trocar de mundo sua porta trancada era esmurrada por um padre e por um agente do DOPS que o caçavam por incitar rebeldia no povo do Rio de Janeiro. Sentado a uma cadeira que servia de portal um vórtice energético aumentava revelando o laboratório-biblioteca de Eldritch. O portal cresceu e Durganara passou por ele com sua cadeira e mochilão de artefatos.

- Meu amigo, temos que trocar de lugar, seu mundo é muito louco, quero minha vida de volta. Troquemos de mundos agora, é meu último esforço, sente-se na cadeira, temos poucos minutos até que invadam minha casa e me prendam. Na Terra você se salvará pois é inocente e poderá usar uma poção de invisibilidade para fugir dos meus inimigos. Sou inimigo declarado de governos ditatoriais e empresas da fé e preciso de você para retomar minha vida nesse mundo! - Durganara estava com pressa e nervosismo, isso era raro para alguém tão equilibrado e seguro como ele, então Valentino se recusou a ir, e aproveitando uma distração do amigo que tinha deixado o mochilão e o cinturão ao chão o jogou na mesma cadeira e a trancou, acionando a alavanca de transferência do artefato; dessa forma ele retornou para a Terra, pouquíssimos segundos depois do curto momento que passou em Zillium.

Acabou-se a energia do portal e o mesmo se fechou de vez, então caído ao quarto estava Durganara com sua forma e roupas originais, o agente do DOPS e o padre que conseguiram arrombar a grossa porta, ao acenderem a luz chocaram-se com aquele ser exótico sentado naquela cadeira com uma expressão decrépita na face. Durganara na versão original era um tanto diferente do tão procurado Hugo "Voz Rebelde" Tavares, mas seus traços de cabelos longos e traços faciais se mantinham idênticos, a não ser pelas cores de pele, cabelos e olhos. O policial o tirou da cadeira, e junto com o padre atestaram que era ele mesmo o tão procurado subversivo cogitado como agitador político e aspirante a terrorista, este ainda estava atônito pela decepção com o amigo apenas chorava enquanto uma minúscula luz se apagava na parede do quarto, ele não resistiu a prisão sendo algemado e humilhado pelos dois inimigos. O padre se assustou com os símbolos místicos tão excêntricos e desconhecidos espalhados pelo chão e paredes daquele quarto pequeno e ficou em dúvida se lidava com um ateu herege mesmo ou se estava diante de um satanista.

O tão caçado Voz Rebelde sentia que estaria morto logo depois de alguns dias de tortura, vários conhecidos e colegas seus tiveram um destino terrível nas mãos dos torturadores a serviço da ditaduta. Levaram-no ao carro e ouviu diversas ofensas degradantes, mas isso não importava diante daquela dura e sofrida traição de seu amigo que o abandonou no momento mais necessário. Durganara sabia que morreria naquela semana em uma cadeia suja, mas quando esteve preso pensou muito, chorou soluçando nervosamente rangendo os dentes, dessa vez com uma mistura de tristeza, decepção, raiva e amargura e tomou uma decisão drástica.

Durganara mordeu uma cápsula que levava presa abaixo de sua língua, retirou-a e colocou entre os dentes, mordeu-a suavemente, logo sentiu uma pequena gelatina de sabor doce espalhando pela língua rapidamente. Um pouco de dor se espalhou garganta abaixo, um forte suspiro foi dado e com um sorriso o extraterrestre encerrou sua existência na Terra, Hugo Tavares ou Durganara não mais existiam. Seu corpo caiu ao chão e definhou em poucos minutos na frente de outros presos políticos, o carcereiro, que segurava um terço católico orava rápido para que aquela cena grotesca de um corpo atrofiando e apodrecendo diante dele fosse apenas uma amarga ilusão terrificante. O rebelde não sentiria mais as dores de viver realidades tão sofridas no planeta ao qual passou a odiar tantas coisas, enquanto amava outras, a grotesca dualidade lhe feria por demais. Talvez Durganara reapareceria em Zillium e expulsaria de lá seu tão decepcionante amigo Valentino, fazendo-o retornar ao seu mundo natal. Na tentativa frustrada de voltar ao seu mundo o filósofo aventureiro conheceu a traição de seu amigo, por uma cápsula ele conheceu o sabor doce da morte, talvez mesmo após todos esses elementos Durganara ainda teria mais aventuras ao cruzar a misteriosa dimensão do mundo dos mortos, mas essa não seria uma aventura qualquer, seria uma aventura além da imaginação.

Observação: Esse texto é baseado em uma conversa que tive com a escritora Rita Maria Félix da Silva.

- Mensageiro Obscuro.
Abril/2010.

- Glossário -

DOPS = Sigla criada para definir o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi o órgão do governo brasileiro criado durante o Estado Novo, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder.

Krentz = uma espécie de animal primitivo de inteligência muito limitada, capaz de ser facilmente manipulado por qualquer ser mais inteligente e poderoso, mas quando reunidos em bandos conseguem ser agressivos e até perigosos.

Murzam = expressão de alegria pela chegada de um visitante.

Reikt = saudação de saúde e respeito por quem chegou, só se fala uma vez por dia para a mesma pessoa enquanto sorri e meneia a cabeça.

Telecinésia = Poder psíquico que concede a habilidade de manipular objetos à distância com comandos mentais.

Foto: "Landscapes 001" por J. P. Targete, 2007.
Portal do artista: Targete Art

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sagrada Prostituta

Uma freira desfilou sorrindo
perto de uma igreja vazia,
com seu jeito faminto e lascivo
revelou tão muda o seu erotismo.

O hábito de fé e puritanismo
amarrotava contra meu corpo,
enquanto ela ria e chorava
tocamo-nos com lascívia.

Fez do altar uma grande alcova,
profanando hóstias e vinho
para nosso banquete, assim,
transgredia como dama herege.

Libertou-se de dores e pudores
como uma sagrada prostituta
em nosso intenso culto erógeno,
tornando-me seu ídolo fálico.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2008.

Foto: "Erotic Nun" por Clovis Trouille, 1944.
Portal do artista: Clovis Trouille

domingo, 18 de abril de 2010

Uma Carta Que Não Entreguei

          Tive uma longa conversa com um amigo na semana passada, viramos a madrugada conversando e concluímos que realmente a vida faz piadas ou tem vezes que viramos meras piadas na vida, ah... essa é uma dura realidade das piadas que fazemos e das piadas que podemos ser. Essa era mais uma daquelas tantas realidades que devo enfrentar de cabeça feita, sim, de cabeça feita. Pensei em você novamente, minha querida e ser só seu amigo é realmente perturbador, ainda é mais chato quando me dizem que sou egoísta em "amá-la desejando ser amado", como se eu devesse viver um eterno amor não-correspondido enquanto quem comentou sobre isso já tem uma relação correspondida e sólida, assim é moleza dar palpite. Já se foi o tempo em que por duas vezes eu declarei o que penso e sinto por você e ao ser rejeitado sumi de sua vida por meses, evitava te encontrar, não queria conversas longas por telefone, internet, pombo-correio, telepatia e sei lá o que mais. Talvez o meu erro tenha sido em liberar tanta intimidade para que você descobrisse os carinhos mais doces que só você sabe fazer em meu corpo, exatamente do jeito que gosto, desde as leves provocações até leves marcas em minha pele que despertam minha libido.
         As coisas que vivemos juntos foram maravilhosas, mas  sinceramente... cansei! Já te disse várias coisas, já ouvi muito mais, não vou negar que tivemos grandes momentos. Sim, tivemos várias situações marcantes: desde belos passeios com pouco dinheiro nos bolsos; as gargalhadas de minhas piadas de humor negro para você; nossas situações tragicômicas regadas a calorosos abraços e voz baixa no ouvido; a cômica situação na qual pensavam que somos namorados, que eu estupidamente queria que isso virasse realidade; e o namorico despretensioso no portão de sua casa em pleno começo de madrugada, onde nossas vozes eram tão baixas e embaladas pelos nossos batimentos cardíacos tão grudados no abraço. Não tenho como esquecer o passado, boa parte das melhores coisas do ano de 2005 até hoje foram junto com você, eu seria mentiroso se dissesse que não valeu de nada.  Você é uma mulher cativante de quem sou íntimo e isso é cada vez mais escasso, portanto não preciso disfarçar frieza a ponto de dizer que você é só mais uma distração casual na minha vida.

         Sigo parte dos meus instintos e lembro de como sofri por tentar fugir ao que realmente sou e de quem sou. Entenda que sou só um animal selvagem se adaptando a uma sociedade degradante e destroçada por sua própria espécie dominante. Você não entende o que me fez te largar ao vento como se fosse folha seca rodopiando pelo ar aos comandos ambientais, assim, tão livre e solta para que seja feliz, ou para que pelo menos busque o que te cativa. Quer saber a verdade nua? Pois eu te respondo mesmo: a verdade é que cansei de tudo isso... cansei desse jogo infantil e limitado no qual você sempre recua, somos adultos. Não te quero pela metade e minha fome de viver momentos únicos com você é maior que as parcas esmolas que você atirou nessa minha cumbuca pidona, fazendo com que eu me considere um coringa excluído sobre uma mesa de poker. Você pensa e sente coisas que sua opacidade não me permitem desvendar, e sobre tantas questões dúbias e sou um homem de certezas, justamente suas dúvidas é que me atraíram jogando-me nesses brinquedos de parque de diversões de fantasia e dor. Pode ser que eu esteja em um devaneio poético típico de um idiota que ama e só sabe nutrir amores impossíveis, daqueles que escrevem suas fantasias copiosamente, regados a música com dor-de-cotovelos e álcool.

        Desisti de relacionamentos falidos com mulheres que nunca vão me amar, nasci para o prazer e não para a o sofrimento, te  digo: amar você dói, dói pra cacete! Já conheço sua conversa sobre voltar a tentar algo diferente como apenas amigos. Quando você me disse que eu deveria dar valor a esses cinco anos de tanto contato. Tanta amizade, tanto que reprimi em mim para não te tomar aos beijos mais intensos enquanto você provocava e recuava, sei como isso me feriu. Já quis passar uma borracha em tudo, tentar começar do zero. Orgulho-me de não ter me acovardado pela timidez e orgulho típicos do meu comportamento passado. Confirmo que estou cético quanto a tudo isso, cético de verdade por duvidar de um futuro namoro com você e até sobre encontrar uma mulher com quem realmente eu combine nesse louco quebra-cabeças onde minha forma é tão exótica e não existe encaixe exato. Eu deveria ter sumido de vez da sua vida, mas atendi seus chamados insistentes e voltei a te amar de uma forma diferente de antes, mas ainda assim um amor diferente da amizade do início de tudo. Sumir de sua vida teria sido minha opção mais inteligente a seguir. Hoje eu já teria evitado todos os encontros após a segunda vez em que me rejeitou, então só assim eu estaria melhor nesse sentido.

         É melhor perder tudo de uma vez no lugar de apenas me contentar com migalhas de incertezas e tantas dúvidas, mas o passado é apenas um prenúncio de lembranças para rir ou chorar num futuro. Preparei minha cabeça para suportar toda essa carga do luto pelo Dia do Fim que durará no máximo 24 horas, onde chorarei tudo que preciso bem distante dos demais. Farei isso bebendo e comendo alguma coisa, meio que sem vontade, com uma caneta na mão e guardanapos gentilmente cedidos pelo garçom cansado e entediado que me atenderá. Escreverei uns versos e estrofes ou linhas e parágrafos nessa minha decadência momentânea e assim, contemplarei o sol se pondo belamente em tons pastéis, com a brisa marinha surrando meu rosto já molhado pelas últimas lágrimas. Realmente você não tem noção do que se passa em mim, nem saberá, pois no dia seguinte serei um homem readaptado. Claro! Não vou choramingar por causa de mulher por mais que apenas um dia. Existem dezenas de outras opções pela frente e ainda tenho mais cinco nomes de mulheres para sair, escritos naquela agenda preta pequena, aquela mesma que nunca te deixei ler. Entre várias anotações existem opções de sobressalência para passeios que misturam conversas razoáveis, risos, carinhos, algumas possibilidades de beijos e talvez umas brincadeiras sacanas para não chegar em casa completamente casto. Por isso declaro o fim desse circo onde o palhaço era eu e você era a platéia, não quero mulher-problema, quero mulher-solução e assim sigo meu caminho.

- Mensageiro Obscuro.
Abril/2010.

Foto: "Don Quixote" por Gustave Doré.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mercadores de Almas

Párias malditos, semeadores da mediocridade humana! Esses são os prisioneiros de suas crenças decadentes e vazias, tão acorrentados em dogmas e conceitos inferiorizantes. Eles são os moralistas contraditórios em negar sua realidade como picaretas e intolerantes, demonizadores de culturas, proselitistas teocratas e fundamentalistas arcaicos. Pobres seres estagnados! Tão mortificados em seu credo lixo e desasiadamente crentes no discurso apologético de um livro muito morto. Os mercadores de almas são os grandes inimigos da razão e lógica, caçadores das mentes pensantes da diversidade, são os especistas, hipócritas, demagogos e machistas, cultistas fiéis do Deus Dinheiro e seu poder distorcido que corrompeu sua essência.

Eis seu deus material e suas crias de almas viciadas e torpes de lânguidas mentes tão radicais. Vestem seus símbolos de decência, abraçando o diabo travestindo como seu deus de esterco. Em suas empresas da fé eles vendem mercadorias inexistentes assim como sua noção de realidade, então compram, vendem e alugam almas em prol de alienações. Torço pela era em que todos esses abusos históricos serão apenas páginas de um passado maldito em um mundo cada vez mais cético.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2007.

-- Glossário --

Mercadores de Almas = Nome pejorativo para líderes religiosos proselitistas, aplicado para definir clérigos católicos, pastores cristãos, aiatolás, gurus e assim por diante. Esse termo é associado a líderes religiosos manipuladores de massas de alienados, escravizados, manipulados e limitados pelo Sistema.

Foto: Foto satírica onde o papa Bento XVI veste-se como nazista. Encontrado no Google Imagens sem referências encontradas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vampiro Também Paga Conta no Bar (2ª versão)

Seu Sebastião era um homem simples, por volta de seus 50 anos bem ativos como dono de bar nas madrugadas em São Gonçalo no Estado do Rio de Janeiro. Um homem alto de corpo médio, pele clara, olhos castanhos apertados, cabelos ondulados muito curtos e pretos com alguns fios grisalhos e brancos, começava a ficar careca e tinha um bigode grosso e grande. Ele vestia uma camiseta verde e uma bermuda preta com frisos laterais brancos e chinelos de dedo em cor preta um tanto gastos. Esse senhor ganhava a vida vendendo bebidas e petiscos em seu boteco nas noites e madrugadas da cidade, a vida era dura, ainda mais com tantos problemas para enfrentar noite após noite naquele bairro, cada vez mais abandonado e escuro, esquecido pelos políticos locais. Era uma madrugada de sábado em agosto, quando chegaram em seu bar dois homens, que se sentaram em uma das mesas  enquanto conversavam em tom baixo. Sebastião percebia olhares de ambos para as bebidas e para ele, isso pareceu natural a princípio. 

O primeiro homem a chegar era muito alto com corpo forte, pele muito branca e brilhante, boca levemente avermelhada e brilhosa, cabelos lisos e loiros pouco abaixo do pescoço, presos em um rabo de cavalo. Vestia um camisão preto de cetim, um sobretudo de couro preto azulado que alcançava um palmo acima de seus calcanhares, calças médias de veludo molhado, cinto com fivela de prata, botas longas de couro preto azulado com bico largo e cadarços também pretos e usava um óculos escuro de lentes redondas com armação preta fosca. Já o segundo homem  que entrou no bar, também tinha rosto fino com nariz comprido, boca fina e sobrancelhas grossas, sua pele era muito clara e boca brilhosa, era mais magro e mais baixo com estatura mediana, tinha cabelos castanho escuros cacheados pouco abaixo da altura das orelhas, também usava óculos escuros de armação preta eu ocultavam seus olhos como seu colega. Ele usava um terno preto básico, com camisa branca e sem gravata, tinha uma medalha de prata ao pescoço, um anel de prata com um rubi pequeno no dedo anular da mão esquerda, uma pulseira fina trançada de ouro no pulso direito e um relógio de corrente que ficava em seu paletó.

Talvez eles fossem membros de uma banda de metal, rock, gótico ou alguma coisa alternativa que o filho do comerciante ouvia, talvez esivessem voltando de um show na cidade, em Niterói ou na Cidade do Rio de Janeiro como podia bem acontecer. Eles pediram uma cerveja que chegou bem gelada dentro de um recipiente térmico colocado em cima da mesa branca de metal, os homens ficaram ali, parados conversando baixo com seus copos e ainda estavam com seus óculos, pessoas com óculos escuros de noite era algo bem raro na cidade, logo causava estranhamento. Sebastião atendia outras pessoas, a noite estava com movimento médio com algumas pessoas sentando para comer e beber, um senhor de meia idade mal vestido e magrelo dançava ao som da vitrola na qual tocava um pagode bem pé-de-chinelo, outras pessoas riam da dança tão tosca, incluindo os misteriosos homens de preto. Logo duas mulheres chegaram, eram conhecidas no bar como vadias por saírem na madrugada em busca de homens que bancassem bebidas para elas, em troca elas ofereciam favores sexuais, era uma venda bem barata pelos seus corpos que já não eram tão grande coisa, mas ainda despertariam interesse em alguns homens não tão exigentes com padrões estéticos. Elas avistaram a exótica dupla com a garrafa de cerveja ainda cheia e logo sorriram para eles.

As moças vestiam trajes vulgares, seus modos para falar e sentar também eram bastante indiscretos apesar de uma delas estar com uma saia bem curta. Era uma moça de pele morena escura, sua pele era bronzeada com marcas de biquini de praia, com baixa estatura, corpo magro com curvas, olhos castanhos escuros grandes, boca vermelha carnuda, cabelos cacheados pretos na altura dos ombros. Vestia uma blusa modelo "tomara que caia" preta e uma saia vermelha curtíssima e colante, levemente transparente que facilmente marcava sua calcinha minúscula, levava uma bolsinha vermelha com detalhes pretos e sandálias de salto alto combinavam com sua bolsa. Sua colega era também bronzeada com marcas de biquini de praia, tinha cabelos loiros tingidos em tom muito claro em corte repicado até o meio dos seus braços, seu rosto era até bonito apesar de uma certa expressão cansada e pesarosa, seu destaque era uma boca carnuda com belos dentes, seu corpo era firme com poucas curvas com altura mediana. Usava um vestido curto branco com estampas coloridas que marcava suas roupas íntimas, sua bolsa era branca assim como suas sandálias com salto baixo.

Elas fingiram não dar muita confiança a tal dupla exótica por puro charme, então sentaram em dois bancos do balcão e ficaram conversando e rindo do velhinho que dançava ao som do pagode. Sebastião notou que a dupla sentada à mesa observava as pessoas do bar, tinha algo bem incomum na maneira como observavam os outros, pareciam esperar algo, talvez alguém ou quem sabe até estariam tramando algo. Não tinha como saber o que eles queriam em seu bar além da bebida que esquentava na mesa, eles o observavam de volta. Isso era um tanto incômodo, mas necessário para quem tem a experiência de lidar com os mais diferentes e perigosos tipos de pessoas, pois nas madrugadas da vida boêmia os tipos mais comuns e mais bizarros são visitantes corriqueiros.

Aquela pele branca da dupla de clientes lembrava uma maquiagem, não dava para saber ao certo o que eles usavam no corpo, mas era algo realmente diferente. Ele não gostava daquela aparência, lembrava as bandas Secos e Molhados e Kiss, ele não gostava do Ney Matogrosso e com certeza desconfiou daqueles jovens senhores. Finalmente aqueles dois beberam uns goles da cerveja, pelo menos o comerciante teve essa sensação ao notar os copos mais vazios assim que seus olhares voltaram para a mesa deles, o mais forte lhe deu um sorriso meio sem graça, seguido de um sorriso do seu colega, novamente Sebastião se concentrou em seu trabalho.

- Não tô gostando desses caras esquisitos no meu bar, o que eles querem? E aquelas vadias, o que fazem aqui novamente? Será que buscam cornos ricos ou clientes para programa? - pensou Sebastião lavando outros copos e separando troco para outros clientes.

Naquele momento os homens abaixaram seus óculos e sorriram para as moças espalhafatosas sentadas ao balcão, elas corresponderam aqueles olhares e sorrisos sedutores, logo se aproximaram da mesa deles que tinha duas cadeiras vagas.

- Cheguem mais, vocês estão aí sozinhas. É bom ter companhia para curtir a noite. Querem uma cerveja? - disse o homem de terno.

- Aceitamos sim, bonitão, mas essa cerveja aí tá gelada? - disse a morena de blusa e saia.

- Está sim. Bebam conosco! - o homem de sobretudo alisou a garrafa e estalou os dedos em cima do gargalo da mesma, esta gelou como se saída da geladeira.

- Hummm... que lindo, temos um mágico na noite. - disse Priscila sorrindo para a dupla sentada à mesa.

- Meu amigo também é "mágico", depois faremos uns truques para vocês. - disse o grandão de sobretudo.

- Sintam-se à vontade, são apenas 01:45 da manhã, a noite ainda será longa. Prazer em conhecê-las, chamo-me Wilson e esse é meu amigo Gilson - disse o homem de sobretudo ao se dirigir para as moças apresentando seu amigo.

- O prazer é todo nosso, sou a Patrícia e essa é a Priscila. - disse a loira de vestido para os homens de preto, ela agora tinha seu copo cheio e bebia leves goles, sentia uma cerveja geladíssima e gostosa descendo pela garganta.

- Agora as "rampeiras" sentaram na mesa deles. Tá pronta a "armação"... essas aí são golpistas mesmo, uma faz o tipo "baixinha simpática" e a outra é a "grandona pensativa". Dupla perfeita de piranhas. - pensava o comerciante enquanto servia peixe frito para outro cliente.

O grupo conversava, em poucos minutos de conversa Patrícia e Priscila se ofereciam para Wilson e Gilson, eles pareciam ir mais devagar com as investidas das moças. As conversas estavam num bom ritmo, eles pareciam mesmo bem letrados na arte de seduzir, o que aumentava a curiosidade das moças que tinham menos de 30 anos. Wilson soltou seu cabelo e abaixou um pouco seus óculos revelando um olhar penetrante, por um breve momento Patrícia suspirou ao ele sussurrar maliciosamente em seu ouvido, então Priscila arranhava de leve o anel de Gilson e queixou-se do frio de sua pele.

- Eu esquento fácil, só depende da companhia. Acha que consegue deixar minha pele quente? - disse Gilson com um sorriso lindo e malicioso olhando o pescoço de Priscila.

- Consigo esquentar muito mais do que você imagina. É só você ter um carro e local, então te esquento todinho. O que me diz bonitão? - respondeu Priscila também com um sorriso malicento, então ajeitou seu cabelo para fazer charme e fechou seu sorriso olhando fundo nos olhos do homem.

- Sim, quero que você me esquente nessa noite, mas não é hora ainda. Vamos beber e comer mais. - disse Gilson brincando com um palito de dentes que acompanhava uma azeitona em um pratinho.

Sebastião concentrou novamente atenções para aquela mesa, um clima de paquera era facilmente notado, aquelas moças pediam mais cerveja, as conversas foram evoluindo, mais cervejas e mais petiscos e os homens apenas as deixavam comer e beber. Por alguma razão eles não pareciam comer e nem beber, mas as bebidas e petiscos eram consumidos pelas moças. Ao olhar para os olhos de Wilson pela queda do óculos sua espinha gelou, sentiu um calafrio e teve a leve impressão de ver um brilho avermelhado nos olhos do homem, mas ignorou, o trabalho cansa a mente e talvez fosse um efeito do sono. O balconista saiu do balcão e foi servir mais cervejas para as moças, ao servir as bebidas Gilson olhou para seu pescoço e deu um leve sorriso de lábios fechados, aquela atitude foi inconveniente, Sebastião olhou feio para a face do homem.

- Quem esse cara é para ficar manjando grossura de pescoço de homem? Já vi viados com tara por várias coisas, mas por pescoço é a primeira vez. Será que eles são adeptos daquele tão falado bissexualismo? Que coisa chata! Com tanta mulher no mundo o que os faz olhar para pescoços de homens? Quero que eles manjem a puta que os pariu! - pensava o comerciante que se zangou com aquele costume exótico dos novos clientes.

- Esses caras tem cultura, vestem-se bem, falaram cada coisa bonita pras vagabundas que elas ficaram cheias de vontade de transar com eles, isso tá estranho, essas "vagabas" geralmente gostam de babacas. Eles nem tocaram nas bebidas e petiscos, mas elas estão bem mais "bêbas" que eles. - o comerciante se indagava sobre os visitantes que bebiam com aquelas companhias femininas tão conhecidas.

Wilson levantou-se da mesa com Patrícia e colocou uma música, era "Bark at The Moon" do Black Sabbath, seguida de "Egypt" de Merciful Fate na vitrola, o mesmo encarou o balconista.

As moças parecem não ter gostado tanto das músicas, provavelmente queriam algum pagode, axé ou funk, mas eles gostaram das músicas e elas tentaram entrar no clima.

- Que babaca, ao levantar o nariz para mim. Igual a esse "machão" tem mais 40 cornos que vem chorar nesse balcão, deixa ele... - pensava o comerciante.

Sebastião mexia na caixa registradora e sentia uma energia estranha, um espécie de leve frio nas costas subindo pela nuca, somada a uma leve agonia. Algo batia dentro de sua mente, mas essa coisa seja lá o que fosse era travada por ele mesmo. Parecia que alguma mente tentava dominá-lo, mas ele resistiu ao comando que zunia dentro de sua cabeça. As músicas acabaram e várias cervejas vazias já encontravam-se fora da mesa para evitar que caíssem, as moças estavam ainda mais bêbadas e mais espalhafatosas que de costume, os homens riam educadamente e falavam com elas em tom médio. Wilson beijava Patrícia e Priscila acariciava o rosto de Gilson, ambos os casais se levantaram e já saíam do bar de mansinho.

- E a conta rapaziada, como é que vai ficar? O papaizinho aqui tem despezas e a farra de vocês foi boa. - Sebastião encarava os casais esperando seu dinheiro.

Wilson voltou ao balcão para falar o balconista. Ele abaixou os óculos escuros e deu um sorriso para Sebastião, enquanto isso o outro rapaz pequeno, branco, de cabelos loiros curtos, olhos azuis apelidado como Mini Kurt trabalhava passando um pano no balcão e ouvia tudo calado. Usava uma bermuda marrom escura surrada, camisa preta desbotada de banda de "heavy metal" e chinelos de dedo.

- Sebastião, meu amigo... a conta fica pela camaradagem. Pela camaradagem... - Wilson com um olhar avermelhado sorria para Sebastião com sua acompanhante abraçada a ele.

- Parece medo, mas é inédito pra mim. Eles não me parecem humanos, será que são vampiros? Seria fantasia demais para acreditar, mas parece que o grandão tentou me dominar. O safado queria me ludibriar, mas não deu certo! Vi isso nos filmes que meu filho assiste! - pensava Sebastião, um pouco aflito após aqueles olhares avermelhados e logo tomou consciência do ocorrido.

- Pela camaradagem? Porra nenhuma! - gritou o balconista.

O balconista pegou um bastão de madeira improvisado que guardava atrás do balcão, mesmo sendo um homem de meia idade deu um pulo por cima do balcão bem rápido. Quando tocou os pés no chão iniciou o ataque aos homens. Patrícia e Priscila espertas como boas vadias noturnas logo se afastaram de seus acompanhantes, então o golpe do bastão de Sebastião pegou em cheio no topo da cabeça de Wilson. Este ainda ficou em pé, mas um tanto atordoado, tentou levantar o braço esquerdo para defender o segundo golpe. O balconista enfurecido foi mais veloz e acertou em cheio a sua cabeça do caloteiro novamente, fazendo seus óculos voarem enquanto ele caía quase desmaiado ao chão.
Gilson avançou para tentar defender o amigo e disse que não pagaria nada, antes que falasse mais levou uma paulada na boca, após aparecer sangue em sua boca seus caninos superiores e inferiores estavam maiores e afiados como pequenas navalhas de marfim, levou mais uma paulada só que nas pernas e tombou estatelado ao chão com sua boca toda vermelha de sangue.
As carteiras de Wilson e Gilson foram apanhadas por Sebastião que pegou cerca de R$ 30,00 (trinta reais) de cada um e jogou suas carteiras de volta para eles, ainda tontos. Patrícia e Priscila estavam assustadas e ajudavam a dupla a se recompor, eles não reclamaram e ainda tontos levantaram-se, mas elas reclamavam com o comerciante pela violência usada contra os homens.

- Vadias, vocês podem ir pro inferno, esses caloteiros podem seus seus guias pra lá. Esses caras não são gente como a gente. Sei lá o que eles são, parecem ser vampiros, olhem pros dentes e pele deles. - indicava Sebastião apontando para as peles e bocas dos mesmos e elas não viram os dentes afiados e longos, de alguma forma elas não os viam.

- Eles não são humanos! Mas tem uma coisa para eu dizer a vocês todos antes que saiam daqui antes de pagar a conta. - enfurecido com o bastão sujo de sangue Sebastião chamou atenção, outros clientes estavam assustados com aquela cena de dois homens por volta de seus trinta e poucos anos derrubados por um senhor de meia idade.

- No meu bar não importa se você é homem, mulher, viado, sapatão, traveco, político, fantasma, anjo, demônio ou qualquer outra coisa. Não tem meio-termo: ou você paga a conta do meu bar ou você leva porrada! - quase aos berros Sebastião proferia sua lei e todos se calaram.

Nunca mais os vampiros daquela madrugada de agosto apareceram no bar de Seu Sebastião, agora todos os humanos e criaturas místicas da cidade só entrariam naquele boteco com dinheiro para pagar a conta, afinal, vampiro também paga a conta no bar!

Obs.: Essa é outra versão do conto "Vampiro Também Paga Conta no Bar", em uma narrativa diferente.

- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2010.

Foto: Cerveja fictícia Duff inspirada no desenho animado Os Simpsons (The Simpsons) criado por Matt Groening. Encontrada no Google Imagens na página Running Duck.De