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Mensageiro Obscuro é um escritor performático que possui um espetáculo solo no qual recita textos utilizando vestuários exóticos, maquiagens e outros recursos criados por ele. Escreve prosas poéticas, poesias, contos, crônicas, pensamentos, frases e experimenta outras formas de escrita.

Seus principais estilos e temas em suas obras são: aventura fantástica, realismo fantástico, autobiografia, onirismo, ultra-romantismo, simbolismo, drama, horror e suspense, ocultismo e misticismo, mitologias, filosofias, surrealismo, belicismo, natureza, comportamento, erotismo e humor.
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Missão Preciosa

Cadavérico e envolto em mortalhas,
ele empunhou sua foice necrótica
e montou seu cavalo fantasma.

Da interseção de luzes e sombras,
sons e silêncio mesclavam-se
anunciando sua nobre chegada.

Exterminou centenas de vidas
traçando a tênue passagem
da matéria ao espectro.

Então o ceifador sinistro sorriu,
ao cumprir sua missão preciosa
naquele conflito degradante.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2009.

Foto: "Death on The Pale Horse" por Gustave Doré.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Troca de Mundos

PRIMEIRO ATO - O MUNDO DE ZILLIUM.
Em um planeta chamado Zillium várias raças inteligentes existiam, incluindo a raça omanur, composta por humanóides de peles, cabelos e olhos de cores variadas, sendo donos de poderes físicos e místicos exclusivos. O céu verde claro de Zillium entardecia mostrando suas duas luas: a minúscula e rosada Arumá e a azulada e grande Riunokô. Então, viajando pelos ares um filósofo aventureiro omanur chamado Durganara voava veloz, o vento batia em sua longa cabeleira cacheada azul com mechas roxas, seu rosto de pele muito branca e lisa gelava com a ventania, enquanto sentia o peso de seus dois grandes livros místicos na mochila presa às costas. Durganara sorria ao sentir a pressão da velocidade de voo de Nitz, seu dragão branco entediado e introvertido com um espesso bigode em sua face alongada; seu corpo era esguio com  dois pares de patas fortes e longas, com garras curvas prateadas; suas asas membranosas eram imensas com grossas membranas e sua cauda continha escamas afiadas em forma de leme. Voando pelas tão conhecidas terras eles observavam cidades e aldeias pequenas, montanhas nevadas com picos imensos, abismos sobre as planícies formando cânions, vulcões inativos e densas florestas, aquelas lindas paisagens cativavam quem as percebesse, logo sua parada estava próxima, desceria no castelo Kágura que era conhecido por ter dois imensos leques sedosos próximos à porta principal.

Durganara encontraria com seu velho amigo Eldritch, então pousou com seu dragão e desceu em um só salto contra o chão, suas pernas e botas fortes suportaram o impacto facilmente. Respirou fundo, arrumou seus cabelos, puxou sua capa e seguiu rumo ao grande portão, Nitz olhava e resmungava para que não demorasse pois estava faminto e caçaria uns krentz pelas fazendas próximas dali.

- Reikt! Quero encontrar o sábio Eldritch, ele me convidou para vir a Kágura, pois ele quer falar comigo. - Durganara sorria para o guarda Valdef, um jovem militar e grande apreciador de seus livros.
- Reikt para o senhor também! É um prazer tê-lo aqui. - Valdef deu um soco duplo fraco contra as duas mãos de Durganara que retribuiu o cumprimento, sorriram e o guarda o guiou pelo grande saguão sobre um imenso tapete verde e paredes de pedra escura. O visitante entrou em um elevador prateado a vapor, controlado por um goblin desajeitado e simpático chamado Chumerim, ele era  careca de baixa estatura como sua espécie, tinha pele verde escura, olhos amarelos pequenos, orelhas pontudas, uma boca grande com dentes pontudos e usava um uniforme preto.

- Murzam! Durga, você veio... vou lhe contar para que te chamei aqui, como bem sabe não largo os prazeres de minha introversão a não ser em casos realmente importantes. - Eldritch usava seu típico traje verde escuro com capa e um chapéu elegante e alto. Estava sentado em uma cadeira luxuosa de madeira, com as mãos sobre uma grande mesa de madeira com vários livros e pergaminhos velhos, poções, pós, pastas, incensos, varinhas, cajados e jóias nos quais desenvolvia suas pesquisas místicas.

O senhor Eldritch tinha 180 ciclos, o equivalente a metade em anos humanos, mas com aparência era a de um homem bem conservado de 45 anos de estatura mediana, pele morena escura, cabelos grisalhos ondulados e muito curtos, olhos castanho escuros e nariz comprido; já Durgana tinha seus 60 ciclos, o equivalente a 30 anos humanos com aparência de uns 16 anos. Os omanur eram a raça dominante em quase todas as áreas conhecidas e habitadas de Zillium, menos em imensas áreas misteriosas e virgens onde quase nunca nenhum homem ou mulher da raça retornou. O sábio contou sobre a mais curiosa descoberta de suas décadas de estudos e pesquisas: a existência de um mundo totalmente com uma única raça inteligente capaz dos atos mais cruéis e idiotas possíveis, com população colossal e repelta de problemas; com a ausência de criaturas inteligentes portadoras de poderes mágicos; onde existem religiões e uns seres chamados de "deuses"; fauna e flora diferenciados e agredidos pela raça dominante; e tecnologias avançadas completamente distantes do que se conhece de Zillium.

Eldritch nomeou tal mundo como "Umanir" e seus habitantes dominantes por "umanirtas", ele estava radiante, segurava os ombros do seu amigo alto e robusto enquanto falava. O aventureiro filósofo puxou um doce estrelado fosforescente de uma mesa ao lado e o comeu, as migalhas brilhavam sobre o tecido brilhoso e colante de suas vestes. Ele sorriu concordando com a missão e logo foi levado a uma sala especial no laboratório, onde Durganara vestiu um cinturão metálico prateado, enquanto isso Eldritch colocava um mochilão com equipamentos em um baú acoplado a uma grande cadeira, nela havia uma armadura metálica que estava aberta. Durganara sentou-se no artefato e esperou novas instruções do sábio inventor.

- Levei décadas para construir esse artefato que nomeie por Transferidor Essencial. Nosso mundo é limitado e talvez essa sua viagem possa nos trazer mais conhecimentos úteis, assim talvez solucionaremos nossos problemas que são mínimos comparados aos deles. Poderemos até ajudar o povo de Umanir tornando-os mais evoluídos. - Durganara ficou quieto enquanto Nitz esgueirou seu pescoço longo para a janela do laboratório-biblioteca de Eldritch e fez perguntas, obtendo respostas ficou triste por não poder ir ao curioso mundo de Umanir. Nitz despediu-se do seu amigo e voou pelos céus rumo a sua caverna gelada, que era conhecida por ter árvores imensas das quais jorravam cervejas e vinhos durante todas as semanas, por lá ele ficaria incomunicável manipulando livros e pergaminhos com seu poder mental de telecinésia, quando sentisse fome ele passaria por mais umas fazendas, sempre caçando um ou dois krentz por semana.

- Meu amigo, só confio em você para essa missão. Já sou um tanto maduro e cansado demais para encarar tamanhos pensamentos e emoções. No Transmissor Essencial, você alcançará um caminho mais longo e pesado do que conquistei ao entrar nesse artefato. Selecionei diversos equipamentos para sua viagem, creio que você enfrentará diversas coisas em Umanir. Registre esses conhecimentos e experiências para nós. - Após essa conversa Eldritch fechou a máscara da armadura, acessou um painel e recitou versos de conexão astral. Logo o corpo de Durganara vibrava com sons, luzes, frio e calor, sua viagem se iniciou para uma passagem dentro dos sonhos de alguém daquele mundo.

SEGUNDO ATO - VIAGEM DE DURGANARA À TERRA.
Minutos após, na Terra, o mundo nomeado como Umanir enfrentava guerras, ditaduras, mudanças político-econômicas, crises financeiras, corrupção, crimes diversos, degradação ambiental e tantos outros problemas no ano de 1964. Nesse mundo doente vivia um adolescente brasileiro localizado na cidade do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro no Brasil. Seu nome era Valentino, um rapaz sonhador de 16 anos, leitor compulsivo de livros de fantasia e bastante introvertido. Ele queria muito que o mundo mudasse e por vezes se imaginava conhecendo outros mundos distantes da realidade da Terra. Sua mentalidade de mundo era pessimista, decadente, sofrida, fria, e desesperançosa; em seu semblante era notável tamanha

Em uma noite de sonhos Valentino se imaginou em Zillium, de alguma maneira chegou àquele mundo em forma de um fantasma. Poucos espíritos humanos viajaram oniricamente até Zillium. - Somente os mais fantasiosos dos humanos conseguiriam passar para aquele mundo - onde apenas alguns momentos de sonhos poderiam horas ou dias em vivência. Uma luz branca e forte saiu por baixo de sua cama, então um mochilão preto e grosso foi arremessado ao meio do quarto, logo após, Durganara também foi empurrado pela luz com a cabeça contra o mochilão; o mesmo saiu rapidamente da cama e começou a falar seu idioma; ao notar que Valentino não o entendia colocou uma tiara exótica e fina na cabeça e começou a falar em português enquanto ouvia o rapaz traduzido simultaneamente em omanurano, seu idioma natal.

- Saudações, umanirta! Sou Durganara Lumurines, vim do planeta Zillium e preciso conhecer esse mundo. Vim em paz e peço que oculte minha presença nesse plano. Seu sonho serviu de ponte para minha vinda a esse mundo. - Durganara estava tenso, não conhecia aquele tipo de quarto repleto de objetos desconhecidos, tudo era muito curioso, incluindo o rapaz não dormir com fitas roxas nos pulsos como era costume de seu povo. Explicou mais detalhes e após longas conversas optou em mudar sua aparência, então usou seu cinturão para alterar a forma, textura e cores de seu corpo e também mudou seus trajes. Valentino chocou-se com tudo aquilo, mas instigado pela curiosidade não conseguiu dormir e continuou sua conversa em tom baixo com o filósofo aventureiro, assim trocando diversas informações úteis, com isso Durganara usou um artefato que o fazia mudar a cor dos cabelos e olhos, assim como alterou a forma de seus trajes para ficar parecido com um terráqueo.

O jovem humano preparou um lanche, mas Durganara estranhou a comida de seu anfitrião ao rejeitar todos os cereais cozidos e carnes, só comendo verduras, legumes e frutas cruas com condimentos diversos, água açucarada com pitadas leves de sal. No dia seguinte ambos resolveram sair, Durganara estranhava os militares nas ruas, a barulhada de carros e motos, ruas sujas e quebradas, assim como tantas outras coisas aberrantes para um zilliano, incluindo os boatos de violência urbana e repressão de censura controlada pela ditadura militar. Através da tiara comunicadora ele gravava relatórios sobre o planeta, quando ficava solitário fazia anotações em uma tela fina e maleável, era uma espécie de pergaminho plástico mágico que saía por cima de seu cinturão e ficava em pé no ar enquanto ele escrevia, utilizando uma caneta flutuante e sem tinta. Realmente era um artefato exótico e muito útil.

Após vários dias de passeio pela Terra foi possível que Durganara conhecesse várias coisas, ele até conseguiu ler diariamente vários livros humanos, utilizando-se de um óculos especial de tradução simultânea saído de seu cinturão. Valentino queria usar o cinturão para se maravilhar com tantas possibilidades, até que seu novo amigo Durganara fez uma proposta ousada para que eles trocassem de lugar; o alienígena usaria poderes mágicos para enganar os sentidos dos pais de Valentino para que ele seguisse para Zillium, o rapaz aceitou e logo Durganara criou uma magia no chão do quarto do amigo utilizando giz de cores variadas, pedras, braseiro, um cajado, pós metálicos, palavras mágicas e algumas gotas de sangue de Valentino, conseguindo ativar um portal pela parede que sugou a cadeira onde o mesmo estava sentado. O jovem humano estava ansioso para conhecer Zillium, levou consigo alguns dos artefatos de Durganara e logo chegou ao laboratório-biblioteca de Eldritch em Kágura.


TERCEIRO ATO - VALENTINO VIAJA À FANTÁSTICA ZILLIUM.
Finalmente Valentino chegou a Zillium, aparecendo dentro do Transferidor Essencial, quando falou dentro da armadura Chumerim o recebeu, abriu o artefato e tirou-o de lá facilmente. Falaram gestualmente, então o rapaz usou uma tiara tradutora que lhe fora dada pelo seu amigo alienígena. O sábio saiu por uma porta próxima que dava para a biblioteca, ele chegou até Valentino, conversou com ele um tanto desconfiado e entregou-lhe uma carta de Durganara, ela estava em forma de um minúsculo cubo do tamanho da falange de um dedo polegar humano. Eldritch a colocou sobre a mesa e pediu que ela se abrisse, então o cubo se desmontou em um grande pergaminho retangular com cerca de meio metro e assim o sábio conheceu relatórios de seu amigo e os transcreveu para seus arquivos de estudos e pesquisas sobre o novo mundo.

Meses se passaram em Zillium, com isso Valentino treinou conhecimentos teóricos variados sob a tutela do sábio Eldritch e se empenhou em escrever as maravilhas daquele mundo; até o dragão resmungão Nitz conversou com ele, a princípio a desconfiança era mútua, mas depois o jovem conseguiu montar em sua cela e teve a experiência marcante de voar nas costas de um dragão; treinou um pouco de artes marciais em um templo localizado em uma montanha voadora; comeu doces que brotavam de vários arbustos e bebeu sucos e bebidas alcoólicas que saíam de árvores; falou com fadas, gnomos, duendes e até brincou de mímica com um fantasma brincalhão. Aquele mundo era realmente fantástico e livre, diferente da ditadura ferrenha e assassina de seu Brasil do golpe militar.

Enquanto isso, na Terra seu amigo Durganara estudava muito conseguindo aprender e ensinar facilmente, estabeleceu alguns contatos superficiais, conseguiu um emprego como técnico em eletrônica e com isso conseguiu pagar uma casa para si, forjou documentos com nome e números falsos e iniciou um trabalho de incitar nas pessoas sentimentos de liberdade, fraternidade, respeito e companheirismo entre tantas outras coisas; assim como também falava demais sobre ecologia, humanismo, ética, justiça e tantas outras coisas profundas e muito avançadas para a maioria das pessoas; Durganara até julgava medidas para mudar aquele mundo, falava sobre planejamento familiar e controle natal, métodos contraceptivos, legalização do aborto, apologia ao Estado laico, estudos sobre ateísmo e agnosticismo, estilos alternativos de vida e demais assuntos polêmicos que eram tabus na época.

Com tantas diferenças ideológicas ele foi considerado herege e ateu para a Igreja Católica, tão dominante no Brasil; assim como foi considerado anarquista, rebelde, revolucionário e subversivo para o governo militar que caçava opositores ao sistema vigente. Utilizando-se de documentos falsos Durganara criou para si a identidade de Hugo Tavares e também usava o pseudônimo Voz Rebelde com a qual divulgava seus ideais para universitários através de jornais clandestinos, certamente Durganara foi caçado pelo DOPS e fugiu ileso graças aos seus artefatos, pois não conseguia ter facilidade para fazer magias no planeta Terra onde a magia não é forte.

Os pais de Valentino o procuravam muito e já perdiam as esperanças que o filho estivesse vivo em algum lugar. Passaram-se quatro anos na Terra e oito anos em Zillium e Durganara já estava entediado e perturbado pelas coisas horrendas que conheceu na Terra, queria voltar para sua terra natal o quanto antes, até para evitar ser morto pela polícia torturadora da ditadura que estava cada vez mais poderosa e perigosa. Enquanto isso em Zillium, Valentino não mais se importava em voltar para seu planeta, já amava o novo mundo acima de tudo. Esse amor pela fantasia de um mundo mais simples passava até por cima da amizade intensa com Durganara.


QUARTO ATO - A DESILUSÃO NO BRASIL DITATORIAL DE 1968.
O filósofo aventureiro havia perdido todo o encanto pelo mundo dos humanos, pela primeira vez em sua vida começou a ter sentimentos decadentes, teve tristeza profunda, então sabia que só tinha uma chance de voltar a Zillium e era trocando de lugar com Valentino, assim ele voltaria ao seu mundo e continuaria sua vida pacata de estudos e aventuras bem mais leves que as tão perigosas aventuras terráqueas. Ele preparou ingredientes para a magia chamada Troca de Mundos, sendo que era uma magia muito poderosa e perigosa que poucos aprenderiam a preparar corretamente.

Durganara esperou uma noite de lua cheia do ano para montar sua passagem para Zillium, conferiu detalhes astronômicos e astrológicos, avaliou equipamentos de precisão e com seu cinturão foi possível começar a perceber um pequeno portal se abrir na parede desenhada. Seu cinturão apresentava sinais de falha, no decorrer dos últimos meses, até os cristais do artefato brilhavam menos, tudo por conta da incompatibilidade com a energia do planeta Terra que não recarregava corretamente seus equipamentos nos últimos meses daquele ano de 1968. Dentro de seu quarto em um bairro isolado do centro da cidade o filósofo aventureiro tentou expandir e manipular a energia mágica, no exato momento que estava com todos os aparatos para trocar de mundo sua porta trancada era esmurrada por um padre e por um agente do DOPS que o caçavam por incitar rebeldia no povo do Rio de Janeiro. Sentado a uma cadeira que servia de portal um vórtice energético aumentava revelando o laboratório-biblioteca de Eldritch. O portal cresceu e Durganara passou por ele com sua cadeira e mochilão de artefatos.

- Meu amigo, temos que trocar de lugar, seu mundo é muito louco, quero minha vida de volta. Troquemos de mundos agora, é meu último esforço, sente-se na cadeira, temos poucos minutos até que invadam minha casa e me prendam. Na Terra você se salvará pois é inocente e poderá usar uma poção de invisibilidade para fugir dos meus inimigos. Sou inimigo declarado de governos ditatoriais e empresas da fé e preciso de você para retomar minha vida nesse mundo! - Durganara estava com pressa e nervosismo, isso era raro para alguém tão equilibrado e seguro como ele, então Valentino se recusou a ir, e aproveitando uma distração do amigo que tinha deixado o mochilão e o cinturão ao chão o jogou na mesma cadeira e a trancou, acionando a alavanca de transferência do artefato; dessa forma ele retornou para a Terra, pouquíssimos segundos depois do curto momento que passou em Zillium.

Acabou-se a energia do portal e o mesmo se fechou de vez, então caído ao quarto estava Durganara com sua forma e roupas originais, o agente do DOPS e o padre que conseguiram arrombar a grossa porta, ao acenderem a luz chocaram-se com aquele ser exótico sentado naquela cadeira com uma expressão decrépita na face. Durganara na versão original era um tanto diferente do tão procurado Hugo "Voz Rebelde" Tavares, mas seus traços de cabelos longos e traços faciais se mantinham idênticos, a não ser pelas cores de pele, cabelos e olhos. O policial o tirou da cadeira, e junto com o padre atestaram que era ele mesmo o tão procurado subversivo cogitado como agitador político e aspirante a terrorista, este ainda estava atônito pela decepção com o amigo apenas chorava enquanto uma minúscula luz se apagava na parede do quarto, ele não resistiu a prisão sendo algemado e humilhado pelos dois inimigos. O padre se assustou com os símbolos místicos tão excêntricos e desconhecidos espalhados pelo chão e paredes daquele quarto pequeno e ficou em dúvida se lidava com um ateu herege mesmo ou se estava diante de um satanista.

O tão caçado Voz Rebelde sentia que estaria morto logo depois de alguns dias de tortura, vários conhecidos e colegas seus tiveram um destino terrível nas mãos dos torturadores a serviço da ditaduta. Levaram-no ao carro e ouviu diversas ofensas degradantes, mas isso não importava diante daquela dura e sofrida traição de seu amigo que o abandonou no momento mais necessário. Durganara sabia que morreria naquela semana em uma cadeia suja, mas quando esteve preso pensou muito, chorou soluçando nervosamente rangendo os dentes, dessa vez com uma mistura de tristeza, decepção, raiva e amargura e tomou uma decisão drástica.

Durganara mordeu uma cápsula que levava presa abaixo de sua língua, retirou-a e colocou entre os dentes, mordeu-a suavemente, logo sentiu uma pequena gelatina de sabor doce espalhando pela língua rapidamente. Um pouco de dor se espalhou garganta abaixo, um forte suspiro foi dado e com um sorriso o extraterrestre encerrou sua existência na Terra, Hugo Tavares ou Durganara não mais existiam. Seu corpo caiu ao chão e definhou em poucos minutos na frente de outros presos políticos, o carcereiro, que segurava um terço católico orava rápido para que aquela cena grotesca de um corpo atrofiando e apodrecendo diante dele fosse apenas uma amarga ilusão terrificante. O rebelde não sentiria mais as dores de viver realidades tão sofridas no planeta ao qual passou a odiar tantas coisas, enquanto amava outras, a grotesca dualidade lhe feria por demais. Talvez Durganara reapareceria em Zillium e expulsaria de lá seu tão decepcionante amigo Valentino, fazendo-o retornar ao seu mundo natal. Na tentativa frustrada de voltar ao seu mundo o filósofo aventureiro conheceu a traição de seu amigo, por uma cápsula ele conheceu o sabor doce da morte, talvez mesmo após todos esses elementos Durganara ainda teria mais aventuras ao cruzar a misteriosa dimensão do mundo dos mortos, mas essa não seria uma aventura qualquer, seria uma aventura além da imaginação.

Observação: Esse texto é baseado em uma conversa que tive com a escritora Rita Maria Félix da Silva.

- Mensageiro Obscuro.
Abril/2010.

- Glossário -

DOPS = Sigla criada para definir o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi o órgão do governo brasileiro criado durante o Estado Novo, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder.

Krentz = uma espécie de animal primitivo de inteligência muito limitada, capaz de ser facilmente manipulado por qualquer ser mais inteligente e poderoso, mas quando reunidos em bandos conseguem ser agressivos e até perigosos.

Murzam = expressão de alegria pela chegada de um visitante.

Reikt = saudação de saúde e respeito por quem chegou, só se fala uma vez por dia para a mesma pessoa enquanto sorri e meneia a cabeça.

Telecinésia = Poder psíquico que concede a habilidade de manipular objetos à distância com comandos mentais.

Foto: "Landscapes 001" por J. P. Targete, 2007.
Portal do artista: Targete Art

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vampiro Também Paga Conta no Bar (2ª versão)

Seu Sebastião era um homem simples, por volta de seus 50 anos bem ativos como dono de bar nas madrugadas em São Gonçalo no Estado do Rio de Janeiro. Um homem alto de corpo médio, pele clara, olhos castanhos apertados, cabelos ondulados muito curtos e pretos com alguns fios grisalhos e brancos, começava a ficar careca e tinha um bigode grosso e grande. Ele vestia uma camiseta verde e uma bermuda preta com frisos laterais brancos e chinelos de dedo em cor preta um tanto gastos. Esse senhor ganhava a vida vendendo bebidas e petiscos em seu boteco nas noites e madrugadas da cidade, a vida era dura, ainda mais com tantos problemas para enfrentar noite após noite naquele bairro, cada vez mais abandonado e escuro, esquecido pelos políticos locais. Era uma madrugada de sábado em agosto, quando chegaram em seu bar dois homens, que se sentaram em uma das mesas  enquanto conversavam em tom baixo. Sebastião percebia olhares de ambos para as bebidas e para ele, isso pareceu natural a princípio. 

O primeiro homem a chegar era muito alto com corpo forte, pele muito branca e brilhante, boca levemente avermelhada e brilhosa, cabelos lisos e loiros pouco abaixo do pescoço, presos em um rabo de cavalo. Vestia um camisão preto de cetim, um sobretudo de couro preto azulado que alcançava um palmo acima de seus calcanhares, calças médias de veludo molhado, cinto com fivela de prata, botas longas de couro preto azulado com bico largo e cadarços também pretos e usava um óculos escuro de lentes redondas com armação preta fosca. Já o segundo homem  que entrou no bar, também tinha rosto fino com nariz comprido, boca fina e sobrancelhas grossas, sua pele era muito clara e boca brilhosa, era mais magro e mais baixo com estatura mediana, tinha cabelos castanho escuros cacheados pouco abaixo da altura das orelhas, também usava óculos escuros de armação preta eu ocultavam seus olhos como seu colega. Ele usava um terno preto básico, com camisa branca e sem gravata, tinha uma medalha de prata ao pescoço, um anel de prata com um rubi pequeno no dedo anular da mão esquerda, uma pulseira fina trançada de ouro no pulso direito e um relógio de corrente que ficava em seu paletó.

Talvez eles fossem membros de uma banda de metal, rock, gótico ou alguma coisa alternativa que o filho do comerciante ouvia, talvez esivessem voltando de um show na cidade, em Niterói ou na Cidade do Rio de Janeiro como podia bem acontecer. Eles pediram uma cerveja que chegou bem gelada dentro de um recipiente térmico colocado em cima da mesa branca de metal, os homens ficaram ali, parados conversando baixo com seus copos e ainda estavam com seus óculos, pessoas com óculos escuros de noite era algo bem raro na cidade, logo causava estranhamento. Sebastião atendia outras pessoas, a noite estava com movimento médio com algumas pessoas sentando para comer e beber, um senhor de meia idade mal vestido e magrelo dançava ao som da vitrola na qual tocava um pagode bem pé-de-chinelo, outras pessoas riam da dança tão tosca, incluindo os misteriosos homens de preto. Logo duas mulheres chegaram, eram conhecidas no bar como vadias por saírem na madrugada em busca de homens que bancassem bebidas para elas, em troca elas ofereciam favores sexuais, era uma venda bem barata pelos seus corpos que já não eram tão grande coisa, mas ainda despertariam interesse em alguns homens não tão exigentes com padrões estéticos. Elas avistaram a exótica dupla com a garrafa de cerveja ainda cheia e logo sorriram para eles.

As moças vestiam trajes vulgares, seus modos para falar e sentar também eram bastante indiscretos apesar de uma delas estar com uma saia bem curta. Era uma moça de pele morena escura, sua pele era bronzeada com marcas de biquini de praia, com baixa estatura, corpo magro com curvas, olhos castanhos escuros grandes, boca vermelha carnuda, cabelos cacheados pretos na altura dos ombros. Vestia uma blusa modelo "tomara que caia" preta e uma saia vermelha curtíssima e colante, levemente transparente que facilmente marcava sua calcinha minúscula, levava uma bolsinha vermelha com detalhes pretos e sandálias de salto alto combinavam com sua bolsa. Sua colega era também bronzeada com marcas de biquini de praia, tinha cabelos loiros tingidos em tom muito claro em corte repicado até o meio dos seus braços, seu rosto era até bonito apesar de uma certa expressão cansada e pesarosa, seu destaque era uma boca carnuda com belos dentes, seu corpo era firme com poucas curvas com altura mediana. Usava um vestido curto branco com estampas coloridas que marcava suas roupas íntimas, sua bolsa era branca assim como suas sandálias com salto baixo.

Elas fingiram não dar muita confiança a tal dupla exótica por puro charme, então sentaram em dois bancos do balcão e ficaram conversando e rindo do velhinho que dançava ao som do pagode. Sebastião notou que a dupla sentada à mesa observava as pessoas do bar, tinha algo bem incomum na maneira como observavam os outros, pareciam esperar algo, talvez alguém ou quem sabe até estariam tramando algo. Não tinha como saber o que eles queriam em seu bar além da bebida que esquentava na mesa, eles o observavam de volta. Isso era um tanto incômodo, mas necessário para quem tem a experiência de lidar com os mais diferentes e perigosos tipos de pessoas, pois nas madrugadas da vida boêmia os tipos mais comuns e mais bizarros são visitantes corriqueiros.

Aquela pele branca da dupla de clientes lembrava uma maquiagem, não dava para saber ao certo o que eles usavam no corpo, mas era algo realmente diferente. Ele não gostava daquela aparência, lembrava as bandas Secos e Molhados e Kiss, ele não gostava do Ney Matogrosso e com certeza desconfiou daqueles jovens senhores. Finalmente aqueles dois beberam uns goles da cerveja, pelo menos o comerciante teve essa sensação ao notar os copos mais vazios assim que seus olhares voltaram para a mesa deles, o mais forte lhe deu um sorriso meio sem graça, seguido de um sorriso do seu colega, novamente Sebastião se concentrou em seu trabalho.

- Não tô gostando desses caras esquisitos no meu bar, o que eles querem? E aquelas vadias, o que fazem aqui novamente? Será que buscam cornos ricos ou clientes para programa? - pensou Sebastião lavando outros copos e separando troco para outros clientes.

Naquele momento os homens abaixaram seus óculos e sorriram para as moças espalhafatosas sentadas ao balcão, elas corresponderam aqueles olhares e sorrisos sedutores, logo se aproximaram da mesa deles que tinha duas cadeiras vagas.

- Cheguem mais, vocês estão aí sozinhas. É bom ter companhia para curtir a noite. Querem uma cerveja? - disse o homem de terno.

- Aceitamos sim, bonitão, mas essa cerveja aí tá gelada? - disse a morena de blusa e saia.

- Está sim. Bebam conosco! - o homem de sobretudo alisou a garrafa e estalou os dedos em cima do gargalo da mesma, esta gelou como se saída da geladeira.

- Hummm... que lindo, temos um mágico na noite. - disse Priscila sorrindo para a dupla sentada à mesa.

- Meu amigo também é "mágico", depois faremos uns truques para vocês. - disse o grandão de sobretudo.

- Sintam-se à vontade, são apenas 01:45 da manhã, a noite ainda será longa. Prazer em conhecê-las, chamo-me Wilson e esse é meu amigo Gilson - disse o homem de sobretudo ao se dirigir para as moças apresentando seu amigo.

- O prazer é todo nosso, sou a Patrícia e essa é a Priscila. - disse a loira de vestido para os homens de preto, ela agora tinha seu copo cheio e bebia leves goles, sentia uma cerveja geladíssima e gostosa descendo pela garganta.

- Agora as "rampeiras" sentaram na mesa deles. Tá pronta a "armação"... essas aí são golpistas mesmo, uma faz o tipo "baixinha simpática" e a outra é a "grandona pensativa". Dupla perfeita de piranhas. - pensava o comerciante enquanto servia peixe frito para outro cliente.

O grupo conversava, em poucos minutos de conversa Patrícia e Priscila se ofereciam para Wilson e Gilson, eles pareciam ir mais devagar com as investidas das moças. As conversas estavam num bom ritmo, eles pareciam mesmo bem letrados na arte de seduzir, o que aumentava a curiosidade das moças que tinham menos de 30 anos. Wilson soltou seu cabelo e abaixou um pouco seus óculos revelando um olhar penetrante, por um breve momento Patrícia suspirou ao ele sussurrar maliciosamente em seu ouvido, então Priscila arranhava de leve o anel de Gilson e queixou-se do frio de sua pele.

- Eu esquento fácil, só depende da companhia. Acha que consegue deixar minha pele quente? - disse Gilson com um sorriso lindo e malicioso olhando o pescoço de Priscila.

- Consigo esquentar muito mais do que você imagina. É só você ter um carro e local, então te esquento todinho. O que me diz bonitão? - respondeu Priscila também com um sorriso malicento, então ajeitou seu cabelo para fazer charme e fechou seu sorriso olhando fundo nos olhos do homem.

- Sim, quero que você me esquente nessa noite, mas não é hora ainda. Vamos beber e comer mais. - disse Gilson brincando com um palito de dentes que acompanhava uma azeitona em um pratinho.

Sebastião concentrou novamente atenções para aquela mesa, um clima de paquera era facilmente notado, aquelas moças pediam mais cerveja, as conversas foram evoluindo, mais cervejas e mais petiscos e os homens apenas as deixavam comer e beber. Por alguma razão eles não pareciam comer e nem beber, mas as bebidas e petiscos eram consumidos pelas moças. Ao olhar para os olhos de Wilson pela queda do óculos sua espinha gelou, sentiu um calafrio e teve a leve impressão de ver um brilho avermelhado nos olhos do homem, mas ignorou, o trabalho cansa a mente e talvez fosse um efeito do sono. O balconista saiu do balcão e foi servir mais cervejas para as moças, ao servir as bebidas Gilson olhou para seu pescoço e deu um leve sorriso de lábios fechados, aquela atitude foi inconveniente, Sebastião olhou feio para a face do homem.

- Quem esse cara é para ficar manjando grossura de pescoço de homem? Já vi viados com tara por várias coisas, mas por pescoço é a primeira vez. Será que eles são adeptos daquele tão falado bissexualismo? Que coisa chata! Com tanta mulher no mundo o que os faz olhar para pescoços de homens? Quero que eles manjem a puta que os pariu! - pensava o comerciante que se zangou com aquele costume exótico dos novos clientes.

- Esses caras tem cultura, vestem-se bem, falaram cada coisa bonita pras vagabundas que elas ficaram cheias de vontade de transar com eles, isso tá estranho, essas "vagabas" geralmente gostam de babacas. Eles nem tocaram nas bebidas e petiscos, mas elas estão bem mais "bêbas" que eles. - o comerciante se indagava sobre os visitantes que bebiam com aquelas companhias femininas tão conhecidas.

Wilson levantou-se da mesa com Patrícia e colocou uma música, era "Bark at The Moon" do Black Sabbath, seguida de "Egypt" de Merciful Fate na vitrola, o mesmo encarou o balconista.

As moças parecem não ter gostado tanto das músicas, provavelmente queriam algum pagode, axé ou funk, mas eles gostaram das músicas e elas tentaram entrar no clima.

- Que babaca, ao levantar o nariz para mim. Igual a esse "machão" tem mais 40 cornos que vem chorar nesse balcão, deixa ele... - pensava o comerciante.

Sebastião mexia na caixa registradora e sentia uma energia estranha, um espécie de leve frio nas costas subindo pela nuca, somada a uma leve agonia. Algo batia dentro de sua mente, mas essa coisa seja lá o que fosse era travada por ele mesmo. Parecia que alguma mente tentava dominá-lo, mas ele resistiu ao comando que zunia dentro de sua cabeça. As músicas acabaram e várias cervejas vazias já encontravam-se fora da mesa para evitar que caíssem, as moças estavam ainda mais bêbadas e mais espalhafatosas que de costume, os homens riam educadamente e falavam com elas em tom médio. Wilson beijava Patrícia e Priscila acariciava o rosto de Gilson, ambos os casais se levantaram e já saíam do bar de mansinho.

- E a conta rapaziada, como é que vai ficar? O papaizinho aqui tem despezas e a farra de vocês foi boa. - Sebastião encarava os casais esperando seu dinheiro.

Wilson voltou ao balcão para falar o balconista. Ele abaixou os óculos escuros e deu um sorriso para Sebastião, enquanto isso o outro rapaz pequeno, branco, de cabelos loiros curtos, olhos azuis apelidado como Mini Kurt trabalhava passando um pano no balcão e ouvia tudo calado. Usava uma bermuda marrom escura surrada, camisa preta desbotada de banda de "heavy metal" e chinelos de dedo.

- Sebastião, meu amigo... a conta fica pela camaradagem. Pela camaradagem... - Wilson com um olhar avermelhado sorria para Sebastião com sua acompanhante abraçada a ele.

- Parece medo, mas é inédito pra mim. Eles não me parecem humanos, será que são vampiros? Seria fantasia demais para acreditar, mas parece que o grandão tentou me dominar. O safado queria me ludibriar, mas não deu certo! Vi isso nos filmes que meu filho assiste! - pensava Sebastião, um pouco aflito após aqueles olhares avermelhados e logo tomou consciência do ocorrido.

- Pela camaradagem? Porra nenhuma! - gritou o balconista.

O balconista pegou um bastão de madeira improvisado que guardava atrás do balcão, mesmo sendo um homem de meia idade deu um pulo por cima do balcão bem rápido. Quando tocou os pés no chão iniciou o ataque aos homens. Patrícia e Priscila espertas como boas vadias noturnas logo se afastaram de seus acompanhantes, então o golpe do bastão de Sebastião pegou em cheio no topo da cabeça de Wilson. Este ainda ficou em pé, mas um tanto atordoado, tentou levantar o braço esquerdo para defender o segundo golpe. O balconista enfurecido foi mais veloz e acertou em cheio a sua cabeça do caloteiro novamente, fazendo seus óculos voarem enquanto ele caía quase desmaiado ao chão.
Gilson avançou para tentar defender o amigo e disse que não pagaria nada, antes que falasse mais levou uma paulada na boca, após aparecer sangue em sua boca seus caninos superiores e inferiores estavam maiores e afiados como pequenas navalhas de marfim, levou mais uma paulada só que nas pernas e tombou estatelado ao chão com sua boca toda vermelha de sangue.
As carteiras de Wilson e Gilson foram apanhadas por Sebastião que pegou cerca de R$ 30,00 (trinta reais) de cada um e jogou suas carteiras de volta para eles, ainda tontos. Patrícia e Priscila estavam assustadas e ajudavam a dupla a se recompor, eles não reclamaram e ainda tontos levantaram-se, mas elas reclamavam com o comerciante pela violência usada contra os homens.

- Vadias, vocês podem ir pro inferno, esses caloteiros podem seus seus guias pra lá. Esses caras não são gente como a gente. Sei lá o que eles são, parecem ser vampiros, olhem pros dentes e pele deles. - indicava Sebastião apontando para as peles e bocas dos mesmos e elas não viram os dentes afiados e longos, de alguma forma elas não os viam.

- Eles não são humanos! Mas tem uma coisa para eu dizer a vocês todos antes que saiam daqui antes de pagar a conta. - enfurecido com o bastão sujo de sangue Sebastião chamou atenção, outros clientes estavam assustados com aquela cena de dois homens por volta de seus trinta e poucos anos derrubados por um senhor de meia idade.

- No meu bar não importa se você é homem, mulher, viado, sapatão, traveco, político, fantasma, anjo, demônio ou qualquer outra coisa. Não tem meio-termo: ou você paga a conta do meu bar ou você leva porrada! - quase aos berros Sebastião proferia sua lei e todos se calaram.

Nunca mais os vampiros daquela madrugada de agosto apareceram no bar de Seu Sebastião, agora todos os humanos e criaturas místicas da cidade só entrariam naquele boteco com dinheiro para pagar a conta, afinal, vampiro também paga a conta no bar!

Obs.: Essa é outra versão do conto "Vampiro Também Paga Conta no Bar", em uma narrativa diferente.

- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2010.

Foto: Cerveja fictícia Duff inspirada no desenho animado Os Simpsons (The Simpsons) criado por Matt Groening. Encontrada no Google Imagens na página Running Duck.De

segunda-feira, 29 de março de 2010

Guerra e Morte

 
Ele:
Correu pelas trincheiras,
furioso e indomável,
unindo amigos e inimigos
no campo de batalha.
Sorria em tons tão rubros
quanto sua armadura
atingindo as massas
com suas armas e ódio.

Ela:
Caminhava calma pelo solo
silenciosa ou barulhenta,
trabalhando entre os vivos
e levando os moribundos.
Neutra em ser seletiva,
sorria em tons tão cinzentos
quanto suas mortalhas,
escolhendo a quem beijar.

Ambos:
Com brutalidades: a Guerra.
Com mistérios: a Morte.
Entre afagos eles se deitaram
na massa de sangue e corpos,
fazendo uma alcova
para sempre se amarem
entre tantas missões.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2010.

Foto: "Crusade - Glorious Death of de Maille" por Gustave Doré.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Vampiro Também Paga Conta no Bar (1ª versão)

Esse sonho aconteceu em novembro de 2007, meu pai havia sonhado algo estranho, ele é um cara bem simples, é comerciante e trabalha a noite administrando um bar em sociedade com meu tio, sendo assim no dia anterior tínhamos assistido um filme sobre vampiros, muito ruim por sinal, mas foi até bom ter assistido o filme. Caso o mesmo fosse muito intelectualizado meu pai dormiria, não conseguindo entender menos que o esperado. Pois bem, meu pai na tarde seguinte relatou-me um sonho com vampiros, fiquei curioso para saber. Então foi assim:

"Filho, ontem a gente viu um filme sobre vampiros daí adivinha... sonhei com uns caras estranhos no meu bar, já fiquei 'cabreiro', mas fiquei na minha." - disse meu pai.

"Conte mais, quero saber os detalhes." - eu aguardava a continuação.

"Sonhei que era madrugada, chegaram dois caras, um de estatura mediana e forte e outro mais alto e magro, os dois estavam usando roupas pretas fechadas, também tinham sobretudos e calças de couro, e a noite estava quente. Pensei que deviam ser roqueiros vindos de alguma casa de show de São Gonçalo ou talvez fosse o povo daqui, que volta do Rio de Janeiro quando tem shows por lá." - meu pai se concentrou em explicar detalhes, estava sério e eu curioso.

"Os caras pediram cerveja e sentaram quietos na mesa, ficaram quietos fingindo que estavam bebendo, mas não fiquei encarando, só achei estranho... pareciam esperar algo. Continuei lucrando com as bebidas e petiscos e parei de encarar os homens estranhos. Eles tinham peles muito brancas, o tipo de pele deles era esquisito, não parecia pele comum, lembrava uma borracha fina e clara, sei lá, devia ser maquiagem de artista, tipo Kiss e Secos e Molhados." - eu ri do comentário sobre as maquiagens, ainda mais por saber que meu pai não simpatiza muito com o Ney Matogrosso.

"Os caras ficaram olhando o pessoal no bar, os olhos deles eram esquisitos e eles tentavam esconder algo na boca, pareciam que tinha comido algo com gosto ruim. Não entendi nada e continuei a lavar os copos." - prosseguiu meu pai com a história.

"Aqueles caras esquisitos finalmente beberam a cerveja, um pouco quente naquele horário, depois umas vagabundas chegaram, tinham roupas bem indecentes, eram meio 'rampeiras', mas até que tinham bom corpo, não sabia se eram 'professoras da madrugada' ou 'piranhas'. Elas sentaram na mesa deles e começaram a conversar, quando fui botar mais cerveja para eles um dos caras olhou para o meu pescoço, não gostei daquilo.
Pensei: 'vai manjar grossura do pescoço de outro homem, porra!' Logo eles conversavam e bebiam com as mulheres, até aí tudo bem." - meu pai riu com o comentário e eu ri daquela cara séria falando bobagem.

"Filho, os caras tinham cultura, falaram cada coisa bonita pras vagabundas que elas ficaram cheias de vontade de sair com eles, mas já tinham bebido bastante, estavam um pouco bêbados, mas elas estavam bem mais 'bebas' que eles. Eles eram estranhos, eu senti que eles eram vampiros, no sonho senti uma energia estranha, um mal-estar e uma certa agonia, parecia medo, mas era inédito pra mim. Não me senti bem quando o mais forte me encarou, senti que ele queria me ludibriar. Ele não conseguiu me dominar. Ele devia ter algum poder mental de vampiro, vi isso nos filmes." - meu pai ficou mais sério e eu fiquei aguardando o resultado da história do sonho.

"O outro vampiro mais magro tinha olhos castanhos, eles tinham um estranho brilho avermelhado enquanto ele andava, estava abraçado a uma das moças da mesa. Levantou com ela e foi até a máquina de música, botou um rock do Black Sabbath e ficou dançando, mas a moça parecia não gostar de rock e pediu funk.
Ele disse que conhecia um tal de 'fuck' e riu, não entendi a piada. O outro vampiro riu com da cara da moça, mas ela não percebeu que ela era a piada." - ele conteve um riso ao relatar a cena.

"O outro mais forte começou a beijar a moça na minha frente há poucos metros da máquina, depois ficou me encarando como se quisesse se mostrar o machão que agarra a mulherada. Que cara babaca. Igual a ele tem mais de 40 cornos no meu bar toda a semana." - ele riu ao contar sobre o vampiro.

"Depois cada um estava com uma das mulheres e foram sair do bar, foram sair de fininho para não pagar a conta. Eram 10 cervejas e um pratinho de azeitonas pretas, coisa barata, acho que não chegava a 30 reais de conta." - ele ficou mais sério.

"Não suportei a cara que os dois fizeram ao olhar para mim, mostraram uma boca cheia de dentes com caninos grandes e afiados e senti um calafrio, fiquei levemente zonzo e disseram para mim que eu esquecesse a conta. Que era melhor deixar tudo pela boa amizade pois a vida é curta." - meu pai ficou mais sério e agora um pouco irritado, pois odeia caloteiros.

"Filho, quando o vampiro mais forte disse isso e o mais magro riu e repetiu: 'pela camaradagem meu caro dono de bar, pela camaradagem(...)'. Fiquei puto, peguei um taco de 'basebol' que ficava atrás do balcão e pulei o balcão para bater nos dois. Bati muito no mais forte e o mais fraco tentou me desarmar, mas tomou um 'coice' no saco e ficou com a voz fininha. Sabe... Vampiro também tem saco e deve doer como na gente. - ele estava com uma mistura de raiva e entusiasmo pela narrativa da luta.

"O vampiro mais forte ficou todo machucado sangrando caído no chão, o segundo fez umas unhas longas e veio pra cima de mim para me arranhar, mas como não gosto desses travestis 'unhudos' da madrugada dei uma porrada certeira no meio da cara do puto. Foi que nem uma sinuca: ele veio com a cara como se fosse uma bola tentando avançar em mim com as garras pra frente, dei uma tacada reta no meio da cara do miserável, ele caiu." - ríamos com a história, nem os poderes vampíricos detiveram a cobrança de um dono de bar.

"O mais forte tentava se levantar quando disse que eu deveria estar dominado por eles, mas falei que homem nenhum domina o papaizinho aqui. O cara tava com a testa e a boca sangrando, foram duas pauladas bem dadas, estava tonto mas já era para estar desmaiado como o outro. Fiquei parado esperando eles levantarem, quando levantaram peguei os dois pelas golas do sobretudo e chutei os caras, primeiro o menor, depois o grandão. As mulheres ficaram assustadas com aquilo e começaram a querer defender os babacas." - eu ria com aquela descrição, devia ser uma cena engraçada, meu pai batendo sozinho em dois vampiros com um taco de 'basebol'.

"Mandei as vadias pro inferno. Disse que ninguém sai do meu bar sem pagar. Então se elas querem homens para bancar putaria seria bom que procurassem os que pagam as contas em dia, pois caloteiro é raça safada. Os caras já estavam de saída, então voltei até eles e peguei as carteiras deles." - ríamos com a história e as caretas do meu pai imitando os vampiros e vadias.

"Aqueles vagabundos e putas foram expulsos por mim, peguei a carteira dos esquistiões quando ficaram caídos na calçada. Eu disse a eles: 'vocês vão embora, a grana fica no caixa. Joguei as carteiras sem dinheiro em cima deles, eles começaram a se levantar para ir embora. A perturbação acabou." - meu pai acabou de relatar mais uma coisa importante para quem é dono de bar na noite.

"Então pai, como acabou seu sonho?" - eu estava ansioso, sentia que vinha mais uma "pérola" típica dele.

"Antes deles irem embora eu gritei firme: 'no meu bar não importa se você é homem, mulher, viado, sapatão, traveco, fantasma, anjo, demônio ou qualquer outra coisa. Você paga a conta ou apanha. Vampiro também paga conta no bar!" - assim meu pai encerrou sua narrativa onírica.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2008.

Foto: Bento Carneiro, personagem vampiro brasileiro criado pelo ator Chico Anysio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cadeia Alimentar


Teu corpo treme e transpira em calafrios, teu sangue está temperado para o banquete, eles estão às tuas costas seguindo teu aroma. Corra, pule os muros, arme-se e esconda-se, não deixe que eles lhe peguem, corra! Na noite a sede aplaca os famintos, tu és a presa, eles os caçadores, não deixes tua vida escapar do corpo, fujas enquanto pode, combata teu inimigo, o terror e mistério lhe caçam.

São bestas de sede insaciável. Malditos! É a gula implacável de imortais noturnos. Corra dos sanguessugas que lhe farejam, pois vidas humanas são teus alimentos. É a existência frágil contra a existência trágica, a sentença mortal contra a sentença eterna. Humanos e vampiros: duelo de dois monstros, resolução de apenas mais um ciclo nutricional. Eis a cadeia alimentar: mais um vivo saciou um vampiro.

- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2007.

Foto: "Conde Stradh" (personagem da saga de livros de RPG Ravenloft) por Clyde Caldwell.
Página do artista: Clyde Caldwell