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Pesquisa no Abismo

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Mensageiro Obscuro é um escritor performático que possui um espetáculo solo no qual recita textos utilizando vestuários exóticos, maquiagens e outros recursos criados por ele. Escreve prosas poéticas, poesias, contos, crônicas, pensamentos, frases e experimenta outras formas de escrita.

Seus principais estilos e temas em suas obras são: aventura fantástica, realismo fantástico, autobiografia, onirismo, ultra-romantismo, simbolismo, drama, horror e suspense, ocultismo e misticismo, mitologias, filosofias, surrealismo, belicismo, natureza, comportamento, erotismo e humor.
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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Inquietude


Acordo inquieto após vagar
pelas estreitas lacunas,
fugindo da tensão e vergonha
que torram meu cérebro.

Esses lábios ainda caminham
aos trancos pelas tortas
vielas do pensar
e no pesar durmo.

Um grito se desloca
por meus neurônios
e permaneço mudo
na silenciosa introversão.

E de tantas realidades
só extraí lisergias,
delas surgiram vergonhas,
um esqueleto desconstruído
e uma larga inquietude.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2011.

-- Glossário --

Lisergia =
"Lisergia é o acrônimo de LSD, Lysergsäurediethylamid, palavrão feio... é o estado de alucinação e psicodelia. Composição das palavras gregas psiké (mente) e deloun (sensorial). É um termo que surgiu na década de 60 quando, com o uso se drogas alucinógenas como o LSD, muitas pessoas tiveram abertas as portas da percepção. É uma manifestação da mente que produz efeitos profundos sobre a experiência consciente.
É aquela viagem louca que você tem ao qual desloca sua mente do seu corpo, onde sensações são sentidas na mente e não no corpo, psicodelia total, assim eram por exemplos Pink Floyd e Creedence em seus vídeos clipes.
Estado em que vivem os chapados... que curtem um barato e voam para uma realidade imaginária e ilusória... tipo os fanáticos que se iludem com o Paraíso.
Progressive é a vertente mais calma, lenta e de extrema lisergia do Psy Trance."
- Bruno Filizola via Dicionário Informal.
(correções de minha autoria)

Foto: "Hand with Reflecting Sphere" de M. C. Escher, 1935.
Fonte: http://www.mcescher.com

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um Disparo

Quando nada mais faz sentido o fim parece ser covardia e egoísmo, mas é apenas libertação da rotina de acordar e mover. Viver tornou-se algo insípido nesse mundo acinzentado, meu corpo dói sem causa aparente. Faço minhas últimas ações, desistindo do pensamento torpe de registrar uma carta de despedida, então vou para o quarto no qual tudo está preparado.

A vida e a morte brincam numa gangorra como duas crianças agitadas enquanto o tambor do revólver é preenchido com apenas uma munição. Minhas dores são emaranhadas da azia de existir e pela fome doentia de apagar-me de vez. Um disparo de metal contra o céu da boca jorra rubro encharcando paredes após o estampido que findou uma existência obsoleta.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2011.

Foto: Revólver invertido encontrado no Google Imagens sem referências disponíveis.

domingo, 21 de agosto de 2011

Doppelgänger

Besta lendária e maldita, desgraça caminhante, invadia a essência dos vivos para seu prazer e copiava minha forma para destruir meu nome! Ser macabro e amorfo, pela forma que confundia meus amigos eu estraçalharia sua carne e ossos. Sem rosto e personalidade próprios ele me copiava até nos detalhes, simulava minhas habilidades e poderes parcamente. A vida do sósia tinha de terminar, eu o livraria do fardo existencial. Solucionaria seu problema com violência pois minha boca não seria o bastante.

Esse fardo de identidade dismorfa deveria cessar com os meus ataques. Quis destruir sua forma inumana libertando esse mundo de sua presença. Desejei-o como oponente em uma batalha, não mais veria seu desrespeito, não mais ouviria suas zombarias. Outras perturbações eram menores, seu sangue seria devorado pelo solo naquele instante.

Fui destemido ao enfrentar meu inimigo, minha existência estava abalada, pelo invejoso e cruel doppelgänger! O copiador das entranhas subterrâneas, o pesadelo dos reflexos distorcidos. Tivemos uma grande batalha física e mística, tamanho duelo foi delicioso ao revelar que sou o verdadeiro Mensageiro Obscuro. Nem tudo podia ser copiado e assim venci ao decapitar quem nunca foi alguém. Venci a batalha, mais um monstro foi derrotado e o Mundo Onírico ficou um pouco mais habitável para criaturas como eu.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2007.


-- Glossário --

Doppelgänger = É uma criatura mitológica de lendas germânicas que podia imitar a forma física, voz e jeito do humano copiado. Lendas contam que o doppelgänger é um humanóide metamorfo que só pensa em si mesmo, possui poderes mentais moderados mas eficazes para manter seu disfarce quando assume a forma de alguém após matar a identidade original. Várias lendas giram em torno desse ser que podia ser também uma versão de personalidade oposta a do copiado, surgindo de alguma forma misteriosa para tomar seu lugar na sociedade. O nome "doppelgänger" se originou da fusão das palavras alemãs: "doppel" (significa duplo ou duplicata) e "gänger" (andante, ambulante ou que vaga).


Foto: "Doppelgänger" por Danny Licul.
Página da artista: Danny Licul

sábado, 26 de março de 2011

Sorriso Convidativo

 Eu vivia mais um clássico dia de tédio dominical, meus amigos estavam com suas namoradas ou descansavam diante das drogas midiáticas, por isso não os chamei para que me acompanhassem em mais uma aventura; como era de costume esse seria um passeio noturno solitário para matar o tédio. Eu me sentia um lixo e não revelaria isso a ninguém, pois certas coisas são tão minhas que minha boca não pode explicar. Mataria o tédio ou ele me mataria por dentro, essa era minha sentença, por conta disso me arrumei com as melhores roupas e perfume para um passeio casual; peguei minha carteira com umas pratas, chaves, caneta e papel e fui andando pelas ruas naquela noite. Após caminhar a pé encontrei um inferninho de pouca luz, decoração retrô, mesas com algumas pessoas variadas e mulheres que pareciam esperar um convite para conversa. E era um dos poucos homens no local, para minha felicidade eu teria menos concorrentes caso tentasse me aproximar delas, mas não queria conversar com ninguém, talvez não ainda. Fui recebido por uma linda e simpática balconista que apresentou-me o bar, disse-me que o microfone era livre para artistas; e eu nem pensava mais em produzir artes.
Como eu já me encontrava condenado a ser demitido de uma latrina profissional fui abraçar o Diabo travestido de bebida alcoólica, os meses anteriores foram sofridos no trabalho e por um raro momento eu nem mesmo sabia o que queria para mim. Resolvi beber solitário do lado de fora do bar, tentando avistar estrelas e mantendo-me isolado, queria até andar mais e deitar numa grama para observar as belezas noturnas, mas lá fiquei. Avistei várias mulheres com diferentes belezas e umas nem tão agraciadas pela natureza. Não quis me dirigir a nenhuma delas, notei olhares e leves sorrisos, mas eu nem estava com clima de pronunciar qualquer coisa, queria apenas beber e talvez pensar em algo que me relaxasse. Pensei seriamente em me abrir mais para conhecer novas pessoas, mas cadê o estímulo que vem de dentro? Talvez a noite ainda reservasse algo especial para mim.

Resolvi entrar no bar e sentei em uma das várias mesas vazias, bebi a curtos goles saboreando uma cerveja, logo uns músicos amadores talentosos se apresentaram e assisti suas apresentações, no pequeno palco sombrio, existiam umas máscaras envelhecidas perto do teto e luzes fracas por detrás delas. Surgiu uma moça do nada quando virei o rosto para o lado, ela estava vestida com chinelos pretos, saia cigana vermelha, blusa decotada preta solta na pele, e tinha pulseiras, brincos e bolsa em estilo hippie; era de baixa estatura com pele clara, cabelos pretos ondulados até os ombros, olhos castanho escuros e uma boca com sorriso fascinante; ela passou perto de minha mesa, deu um sorriso que mesclava inocência e luxúria e seguiu até o microfone. A pequenina foi ao palco e cantou músicas nacionais e estrangeiras famosas sobre amores decadentes, mulheres cativando homens e outras coisas românticas sugestivas em MPB, blues, jazz e rock progressivo.
Cantou com uma certa técnica e muita emoção em sua doce voz que variava do soprano ao contralto e nas névoas de cigarros e charutos daquele bar eu fui embalado pelo seu canto sedutor. Sorria discretamente para minha direção enquanto cantava e pensei que não era comigo, mas eu era o único homem na posição de seu sorriso, então sorri. Fui recompensado com um sorriso completo com dentes e olhos brilhando; ela mal sabia que eu tinha uma grande atração por cantoras, era como se ela soubesse como me cativar. Pensei "mocinha, não faz assim que você me leva no bico", virei o rosto para disfarçar meu interesse por ela e acabei minha primeira garrafa de cerveja barata. Ela andou devagar desviando das mesas e cadeiras, pediu uma cadeira, disse a ela que levasse as cadeiras que quisesse, então sorriu para mim, desistiu das cadeiras e sentou-se perto de mim dizendo estar solitária e interessada em conhecer novas pessoas.

Não sou vítima do amor romântico, mas por aqueles minutos eu só queria ilusões, pois a realidade era drástica demais para que eu me concentrasse nela. Sentou-se colada ao meu corpo e pedi a balconista bonitona uma garrafa de vinho tinto bem doce acabando por sacrificar todas as cervejas baratas que compraria. Li o rótulo daquela garrafa fingindo ser algo inédito e pedi mais um copo para a hippie que bebeu comigo sem pestanejar, a mesma era baixinha, talvez tivesse pouco mais que um metro e meio e pés por volta do tamanho trinta e quatro. Conversamos assuntos inteligentes e divertidos regados a álcool, depois bebemos uma garrafa de vodka paga por ela que me rasgava a garganta mas valia a pena pela companhia.
A hippie me perguntou algo que não lembro, quando virei o rosto para respondê-la fui interrompido por um beijo na boca; nem tive tempo de pensar, foi súbito. Ela me abraçou de lado pelas costelas, paramos de nos beijar e ela permaneceu fortemente abraçada a mim. Quase tive um torcicolo para beijá-la pela nossa diferença de altura, mas ignorei a dor e continuei abraçado fazendo-lhe carinho na nuca e cabelos, assim está vamos calados apreciando aqueles momentos. Conversamos ainda mais e não nos apresentamos por nossos nomes parecerem obsoletos. Pegamos nossas garrafas de vodka e vinho e caminhamos abraçados bebendo no gargalo como se nos conhecêssemos há tempos. Entre um gole e outro, mais beijos e abraços apertados surgiam e os minutos pareciam passar mais rápido.

Deitamos num gramado mais afastado na madrugada e observamos estrelas, falando coisas intelectuais e bobagens, já estávamos arrastando a voz pela embriaguez. Aqueles momentos foram tão profundos e gostosos parecia até uma piada do suposto destino, pois eu era imã de mulheres problemáticas. Então ela me deu um bilhete fechado e me fez prometer que eu só abriria quando chegasse em casa, aceitei a carta com curiosidade, mas fui fiel ao compromisso pedido por ela. Depois de várias horas juntos nos despedimos calorosamente com abraços fortes e beijos selvagens com mordidas, perguntei se a encontraria novamente, lembro de sua voz arrastada dizendo que ela me buscaria para comemorar meu aniversário mais tarde. Brindamos o aniversário dela com o resto de bebida que tínhamos, ela bebeu tudo num só gole. Várias horas depois eu acordei e li o bilhete que estava todo amassado dentro de minha carteira, continha um endereço de um cemitério na cidade vizinha com o horário de 16h e com um beijo em batom rosa claro como assinatura.
Almocei e me arrumei ainda com um pouco de ressaca; era uma tarde nublada e cheguei ao cemitério no horário marcado, fiquei esperando por muitos minutos até que tive uma curiosidade por observar a beleza dos túmulos e mausoléus. Notei duas garrafas por trás de um arranjo de flores, em um túmulo todo colorido, provavelmente era de alguém que morreu jovem. Aproximei-me e removi um vaso com flores mortas da frente da lápide e percebi que eram as garrafas que a hippie e eu bebemos na madrugada, logo consegui ver a lápide agora descoberta e encontrei a foto da moça com aquele sorriso convidativo e os dizeres "Camila Arlequim Vinhedo. Nascimento: 20 de março de 1940 - Falecimento: 21 de março de 1964. Uma vida de emoções fortes que foi prematuramente interrompida". Fiquei triste pela morte dela e pensei se haveria um próximo encontro ainda naquele dia. Dessa vez eu tinha me engalfinhado com um fantasma hippie, já me relacionei com várias mulheres loucas, mas ter romance com uma mulher que já morreu é novidade para mim... realmente a lei de Murphy me persegue.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2011.

Foto: Isis Valverde. Postei essa foto por achar o rosto e sorriso dessa atriz lindos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Troféu Surreal

Esmurrei um padre pegando sua idolatrada cestinha transbordando de fé verde, vandalizei o quadro vermelho do ditador gigolô com anarquia preta, também destruí os cabos transmissores daquela emissora televisiva e ainda arranquei umas máscaras sangrantes rindo copiosamente.

Au, Au, ou... ou! Chutei a poltrona, manquei feio. Onomatopéias...

O arame farpado prendeu e rasgou um idiota que insistia em babar fezes enquanto resmungava ferido e amedrontado no quintal. Eu não tenho pena, não tenho mesmo. Que se exploda meu cinismo e sujeira moral, assumo mesmo: te desci a porrada!

Te amarrei para assistir sua desgraça, solei em meu baixo elétrico chorando e gritando desesperadamente e duas cordas grossas de metal arrebentaram cortando seu rosto.

Scarrf! Escarrei uma goma grossa e visceral que te encapuzou nessa podreira toda. Cuspi, sim senhor e foi fodido, você quase se sufocou no meu catarro.

Bati palmas e gargalhei do teu medo, pois te odeio, é puro sadismo meu. Pausa para meu riso! Eu quero rir, cacete! Ha, ha, he, he. Satisfeito!

Posso falar mais alto? Posso sim! Nenhum babaca vai me impedir, não podem te ouvir gritar! Eu tenho o megafone e seus ouvidos vão estourar com minha histeria!

Pingue, escorra nesse show desgraçado onde gerarei insanidade com tanta vodka na idéia, vou colocar a culpa nessa cachaça. Tá, eu sei que não é cachaça, trepe com o gargalo!

Eu mato e torturo mesmo, eu te torturei e matarei mesmo na insônia voraz que me prostitui nessa merda fedida. Qual é a tua? Diz pra mim!

Só na minha cabeça você existe. Pare de chorar, é o fim!

Engulo risonho a chave para minha fuga, fico trêmulo com minha confissão amassada na mão, então rasgo o chão para longe do meu rastro rubro. Eles chegarão para nos recolher, mas não se preocupe, você não foi escondido, sua cabeça está nessa mão e já finquei teu corpo como troféu no portão de casa. Enrolei eles  no telefone por meia hora dando um prejuízo, e agora eles querem me exibir e já estou devidamente trajado para isso.

- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2010.

Foto: "Bloody Trophy", troféu feito de sangue humano e sangue animal por Thyra Hilden e Diaz.
Portal da artista: Thyra Hilden

terça-feira, 6 de julho de 2010

Serenata Mortuária

O silêncio era a existência de leves murmúrios de folhas secas nas noites silenciosas, os sussurros misturavam-se à escuridão, fazendo o vento frio ao ouvido passar de um lado ao outro. A paz era firme naquele bosque gélido, animais fugiram assustados sem nenhum motivo aparente, algo estava perto, o que era eu não sabia. Pensei no ápice de minha solidão naquele local misterioso sobre onde estariam os amáveis brilhos das luzes e por qual razão o céu tão escuro não me revelava a intensa prata lunar. Que segredos guardavam esse lugar pelo qual caminhei? Eu filosofava amando aquela beleza tão sombria, aqueles encantos tão marcantes que me tornavam parte daquele local de uma forma inexplicável. Queria conhecer mais, queria ser parte daquele solo, flora, fauna, vento, água e tantas outras coisas que compunham o cenário de uma beleza noturna.

Pensei e mais perguntas e dúvidas vieram junto com o medo, senti uma baforada quente ao pescoço e vi um vulto correr veloz como um fantasma afoito, seu barulho cessou, voltei ao meu caminho, um tanto assustado, mas ainda curioso em sair daquela mata. Inesperadamente fui arrancado do chão e sucumbindo ao pânico fui arrastado árvore acima... meu pescoço foi rasgado, senti-me escoando em jorros, lentamente uma fera sugava meu sangue. Fui atacado por um vampiro ou demônio? Não importava. Fui mais uma nota nessa serenata mortuária, novamente veio o silêncio da noite.

- Mensageiro Obscuro.
Outubro/2006.

Foto: "Death as a Cutthroat" de Alfred Rethel (1851).

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Missão Preciosa

Cadavérico e envolto em mortalhas,
ele empunhou sua foice necrótica
e montou seu cavalo fantasma.

Da interseção de luzes e sombras,
sons e silêncio mesclavam-se
anunciando sua nobre chegada.

Exterminou centenas de vidas
traçando a tênue passagem
da matéria ao espectro.

Então o ceifador sinistro sorriu,
ao cumprir sua missão preciosa
naquele conflito degradante.

- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2009.

Foto: "Death on The Pale Horse" por Gustave Doré.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Guerra e Morte

 
Ele:
Correu pelas trincheiras,
furioso e indomável,
unindo amigos e inimigos
no campo de batalha.
Sorria em tons tão rubros
quanto sua armadura
atingindo as massas
com suas armas e ódio.

Ela:
Caminhava calma pelo solo
silenciosa ou barulhenta,
trabalhando entre os vivos
e levando os moribundos.
Neutra em ser seletiva,
sorria em tons tão cinzentos
quanto suas mortalhas,
escolhendo a quem beijar.

Ambos:
Com brutalidades: a Guerra.
Com mistérios: a Morte.
Entre afagos eles se deitaram
na massa de sangue e corpos,
fazendo uma alcova
para sempre se amarem
entre tantas missões.

- Mensageiro Obscuro.
Março/2010.

Foto: "Crusade - Glorious Death of de Maille" por Gustave Doré.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Saqueador de Almas

Ele dormia envolto em nobres vestes com ricas jóias, um vampiro faminto, saqueador de almas corruptas, suas habilidades e poderes são tão intensos quanto sua fome e possuía um desejo pervertido e insaciável por vidas. O Poder corria por suas veias consumindo sua sanidade, sua energia exalava terror pelas noites nebulosas de caça. O usurpador saía faminto de seu túmulo à noite, sua luxúria era saciada em caçadas por carne e sangue.

Há muitos séculos perdera seus traços de humanidade, seu Ka fora amaldiçoado, não chegaria ao Amenti, ganhou uma existência amaldiçoada pelos deuses. Agora o Egito adquiriu um novo monstro sanguinolento. Passou suas garras e presas nos corpos de suas vítimas, dilacerou carnes e ossos por fome e prazer, corpos em espasmos foram consumidos pela fera, gritos e violência contagiavam ambientes invadidos.

Sobraram paredes e um assoalho manchado após sua visita. Correu para banhar-se, ainda com mãos e lábios vermelhos. Gargalhou de si mesmo vendo seu reflexo turvo, olhou seu próprio rosto pálido e brilhoso no espelho. Na banheira cochilou como se fosse seu valioso sepulcro. Sua ira e gula fizeram-no chorar parcas lágrimas inconsistentes. Sua noite estava acabando, tinha de fugir do sol, Vestiu outras roupas e retornou voando como névoa.

Sangue corrupto era o seu alvo, o Néctar do Justiceiro, era o Saqueador de Almas, um semideus sugador de sangue. Seus leais servos enalteciam de seu egocentrismo divino, somente espíritos nobres salvavam-se de sua fome agressiva. Novas noites sangrentas ainda alimentariam o insano usurpador infeliz.

- Mensageiro Obscuro.
Junho/2007.

-- Glossário --

Amenti = Habitação dos mortos, a segunda etapa da Viagem. Morada de Osíris onde são julgados os mortos.

Ka = Estranha dualidade do morto: Alma e Guardião, Corpo Vital e Gênio Protetor.

Néctar = Alimento dos deuses. Dava imortalidade aos que o comiam e tornava-os eternamente jovens e radiosos.

Segunda Morte = Para os egípcios a morte material pouco importava, para eles era bem pior ser um espírito perverso a receber altas punições na sua pós-vida no Além, então a Segunda Morte sem dúvida era a pior punição acima de maldições divinas.

Foto: Boris Karloff como Imhotep no filme "A Múmia", 1932.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Death Note - O Caderno da Morte

Há tempos a humanidade precisa ser reformulada, sonhos e pesadelos se mesclam em minha mente, com o peso dramático de uma realidade decadente. Só desejo um mundo melhor, sou divino, sou a lei da vida e da morte. Atingirei o ápice pisando sobre cadáveres, quem atrapalhar meus planos pagará caro, escreverei mais nomes no Caderno da Morte, saboreio o doce fim do lixo social. Fracotes! Não fujam, pois os encontrarei.

Enganei e despistei até a polícia para matar mais, livrei a humanidade de parte de sua escória, após tanto trabalho ainda querem me controlar? A prisão perpétua ou pena de morte não mudam nada, tenho um "Death Note" para destruir quem eu escolher. Humanos agora são marionetes, pois sou um deus!

Lembrem-se: Shinigamis só comem maçãs! Sou Kira! Ditarei como e quando muitos morrerão. Pela caneta destruo mais vidas que qualquer arma, com malícia nos lábios aguardo o início de meu império. Não sou um monstro, sou apenas um deus incompreendido.

- Mensageiro Obscuro.
Janeiro/2008.

N.A.: Texto em homenagem ao anime, mangá, filme e outras produções da série otaku Death Note escrita por Tsugumi Ohba e ilustrada Takeshi Obata.

-- Glossário --

Death Note = É o nome do anime, mangá e filme de longa metragem que conta a história do Caderno da Morte, este é um artefato místico fictício em forma de caderno, consiste em matar quem tiver seu nome escrito nele. Com o caderno ganha-se um shinigami e certas regras sobre a realidade envolta pelo caderno. Durante a obra diversos detalhes apresentam um enredo denso e interessante que prende a atenção do espectador e leitor.

Kira = É um pseudônimo usado pelo protagonista de Death Note, tem relação com a fonética japonesa da palavra inglesa "killer" (assassino em português).

Shinigami = Um tipo de divindade japonesa responsável pela morte. Shinigamis são deuses da morte japoneses.

Foto: Imagem anônima extraída do Google Imagens.

domingo, 20 de setembro de 2009

Lar de Minha Tristeza

Folhas secas caem em meu solo infértil, folhas tão secas como meu coração por dentro, estátuas desgastadas, quebradas e empoeiradas enfeitam minha morada tão decrepita. Todas elas tão esquecidas quanto meus sentimentos antes intensos e um dia tão quentes. Meu sarcófago está aberto e ansioso pelo meu corpo ainda tão vivo, minha alma está aderente ao sabor curioso e esperado da morte, não mais tenho esperanças em viver. Dor, tristeza e sofrimento transbordam, solitário estou, esperando o beijo da morte, e o lar de minha tristeza ainda está erguido! Beije-me, sentencie-me ao fim, faça de mim uma pedra! Que eu seja a pedra na cabeça dos inimigos, que sintam minha dor e angústia em seus corpos. Para a glória de meu ego, abandono o perdão e digo: maldita hora em que nasci e cresci!

Lágrimas e dores corroem meu tolo espírito, seres espectrais perturbam-me em solo sagrado, sacerdotes macabros fingem benevolência, eu os odeio e eles fingem me amar. Lar de minha tristeza, dor em minha morada, eis meu refúgio do martírio nessa sentença decadente! Prisão secreta onde choro sem temor de ser visto, onde o solo comerá de minha carne aos meus ossos. Agora deixem-me saborear as desilusões de minha vida morta enterrado no lar de minha tristeza.

- Mensageiro Obscuro.
2005.

Foto: Algum túmulo em um cemitério (arte cemiterial e tumular).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dupla Existência, Existência de Duplo

Caminhei como um fantasma em matéria e também em espírito, a mortalha que me cobre é mutável como minha forma. Hoje sou amigo de vivos e mortos, com ressalvas lógicas e a alcova onde durmo é um sarcófago em um mausoléu. Descobri mistérios da morte e agora recebo oferendas, tenho sentidos e habilidades incompreensíveis aos vivos. Libertei-me da fragilidade mortal, estou imortalizado, tenho ciência de outros planos e sou parte de algo maior.

Anúbis me guia até os portões, Jehuty relata minha vida, Maat retira sua pluma, Seth me acusa, todos me observam. Osíris, Ísis e Hórus aguardam meu espírito transfigurado. Parte de mim é Ba, parte é Ka e juntando-os sou Akh. Tenho quarenta e dois juízes antes do Amenti ou Abismo, meu coração será avaliado e apenas aguardo o resultado final. Vivo agora minha dupla existência, minha existência de duplo.

- Mensageiro Obscuro.
Janeiro/2008.

-- Glossário --

Abismo = Local onde os espíritos são jogados após o julgamento dos 42 juízes do Amenti. Nesse local os espíritos que tiveram sua consciência mais pesada que uma pluma terão de guerrear onde somente os mais poderosos sobrevivem, tornando-se divindades locais.

Akh = Termo usado para referir-se a alma imortal conseguida no pós-vida. Resultado da fusão de Ba e Ka que cria o espírito transfigurado que será julgado pelos 42 juízes na Sala das Duas Verdades. Era a força divina, a alma imortal.

Amenti = Templo mitológico egípcio aonde as almas dos mortos eram reunidas depois da morte, para serem julgadas por Osíris e por outros neteru. Correspondia a uma parte intermediária conectada a outros destinos espectrais, onde as almas já julgadas seriam destinadas a existir.

Anúbis = Neter egípcio do submundo dos mortos, mumificação, auxiliador no julgamento, representante da imparcialidade e racionalidade. É representado como um homem com cabeça de chacal ou cachorro preto. Seu culto era realizado na cidade de Cynopolis e possui templos-cemitério para o treinamento de seus discípulos e cultistas.

Ba = Correspondia ao espírito, era a parte mental do humano.

Hórus = Neter egípcio filho do neter Osíris com Ísis ao qual os aspectos dos céus, sol e lua são associados. É representado como um rapaz com cabeça de falcão. Quando Osíris foi morto por obra de Seth o jovem Hórus caçou seu tio, perdendo o olho direito e castrando seu inimigo, então assim se tornou o deus dos vivos.

Ísis = Netert egípcia irmã e esposa de Osíris e mãe de Hórus a qual os aspectos de protetora da natureza e magia, maternidade, fertilidade e amizade, entre outras coisas. Sua forma animal é por vezes a de uma vaca (associada a Hathor) ou abutre (quando cuidava dos pedaços de Osíris).

Jehuty = Neter egípcio do conhecimento, intelectualidade, magia, mistério, ocultismo e Lua. É representado como um homem com cabeça de íbis ou macaco babuíno. Seu culto era realizado na cidade de Hermópolis, onde discípulos e cultistas treinavam seus conhecimentos em templos-biblioteca. É chamado pelos gregos pelo nome de Thoth.

Ka = Estranha dualidade do morto: alma com guardião e corpo vital com gênio protetor.

Maat = Netert egípcia responsável pela verdade e justiça, também é a representante do equilíbrio da vida e morte. É representada por uma mulher jovem exibindo na cabeça uma pluma de avestruz.

Osíris = Neter egípcio responsável pelas técnicas necessárias para criar a civilização humana como a agricultura gerando colheitas fartas, assim como também tem o controle sobre águas do rio Nilo, é o deus da morte do Egito antigo. Representado como um homem de pele verde, podendo estar ricamente vestido tanto como humano de pele verde ou múmia faraônica. Ele é o principal entre os 42 juízes que presidem julgamentos aos espíritos na "Sala das Duas Verdades", onde se procedia a pesagem do coração ou "psicostasia". Osíris é mitologicamente apresentado como filho de Geb e Nut, irmão e marido de Ísis, pai de Hórus e irmão de Seth.

Foto: "Chakras" por Alex Grey.
Portal do artista: Alex Grey

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Alma Cansada

Acabaram-se aqueles bons momentos,
resta a saudade, frio, dor e vergonha.
não mais creio em meus sentimentos,
a intensidade cessou, veio o vazio.

Memórias, lamúrio de uma alma cansada,
a realidade construiu um destruído,
os ossos ainda seguram a carne surrada,
pensamentos e emoções, nada com sentido.

Morbidez, triste fim, depressiva essência,
o cansaço. Oh! cansaço que me consome!
Fantasmas mesclam-se à minha essência,
bebo sem sede, mordo algo sem fome.

Desilusões são minhas maiores convicções,
não tenho esperanças nem mesmo sorte.
a miséria morde-me sorrateira e furtiva,
nada mais quero, basta-me o gelar da morte.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2007.


Foto: "Hamlet and Horace au cimetière" por Eugène Delacroix, 1839.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Oferenda a Anúbis

Senti um chamado familiar ao caminhar nas areias, uma voz grave me atraiu na noite estrelada, entre covas e mausoléus corri na névoa mortuária. Eu encontraria alguém e estava preparado, entrei em uma pirâmide no frio desértico. Trajando minha capa esvoaçante e artefatos, desci longas escadas na penumbra da cripta, com suas pinturas e símbolos pelas paredes. Necromantes estudavam seus livros e pergaminhos e novamente fui chamado pelo meu grande pai Anúbis.No Templo-cemitério marchei entre a escuridão e tochas, o chacal imponente tornou-se híbrido e conversamos, o Guardião dos Mortos anunciou uma nova batalha e precisei do empréstimo de seu poder mortuário vindo do submundo de estudos, sombras, frio e silêncio.

Na morte fiz minha vida, na vida fiz minha morte, lacrei sonhos infrutíferos e ergui meu machado contra mortos-vivos, donos de essência impura. Exterminei aberrações naquela dura missão interrompendo o retorno dos malditos com a necromancia. A luta contra os filhos da morte foi implacável, a oferenda a Anúbis foi entregue.


- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2007.


-- Glossário --

Anúbis = Neter egípcio do submundo dos mortos, mumificação, auxiliador no julgamento, representante da imparcialidade e racionalidade. É representado como um homem com cabeça de chacal ou cachorro preto. Seu culto era realizado na cidade de Cynopolis e possui templos-cemitério para o treinamento de seus discípulos e cultistas.

Capa e artefatos = Traje cerimonial com objetos dotados de poderes místicos típicos de uma ordem de mistérios, que necessita de uma disciplina notada por símbolos sociais e espirituais.

Chacal = Anúbis em forma animal, também representado por um cachorro preto. Uma transfiguração do neter que vagava pelas áreas mortuárias.

Guardião dos Mortos = Um dos muitos títulos para identificar o neter Anúbis.

Necromancia = Magia que utiliza contatos e manipulação de mortos nos processos de funcionalidade mística.

Necromante = Mago que aprendeu a usar a necromancia.

Pinturas e símbolos = Menção a arte literária e mensagens da religião egípcia representadas nas paredes dos templos, assim como nas cavernas homens pré-históricos registravam sua história cotidiana com sua pintura rupestre, uma das primeiras linguagens visuais segundo a antropologia.

Pirâmide = Construção funerária que servia de mausoléu para guardar um cadáver e seus pertences, sua forma representa os raios de Rá, o neter sol supremo neter egípcio das eras antigas. Tem grande poder espiritual e um significado profundo.

Poder mortuário = Menção a necromancia.

Submundo = Poderia ser o subterrâneo comum, mas essa expressão refere-se ao mundo dos mortos.

Templo-cemitério = Estilo de templo usado pelos cultistas de Anúbis, um templo construído dentro de um cemitério ou um templo com um cemitério dentro para estudos e contatos com a morte.


Foto: Estátua do neter egípcio Anúbis. Sem referências encontradas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Rosto Trágico

Pensei que  minhas lágrimas desceriam
esperei em meu sepulcro sórdido.
Da boca que pronunciava alegria
também escapava ternura...
dessa boca nada mais escapou.

A pele pálida era sem reação,
nenhum riso amável,
minha dor ninguém entende.
Com o espírito cansado,
a têz virou mármore,
retrato pétreo do inevitável.

Eis o rosto maldito,
face louca deprimente,
meu pesadelo terrível!
Sofri amargamente,
minha humanidade perdida,
quem fui... morreu.

Agora sou um espectro,
decadente máscara mortuária.
Restou um rosto trágico
ironicamente desfigurado.


- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2007.


Foto: Máscara artística teatral. Imagem encontrada no Google Imagens sem referências.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Marcha Funérea

O cortejo suave de quem chorou
extinguiu-se em cor mortal.
a mortalha longa tremulou,
tornou-se capa espectral.

Esgueiro-me entre lápides,
vestido em tecidos mortuários,
sugando o calor de vários,
má notícia em tablóides.

Pele cianótica, inerte carcaça,
nesse baile de máscaras,
somente vida pútrida e escassa.

Só esquecimento, vida etérea,
ofereçam-me vinho e uma taça
para brindar essa marcha funérea.


- Mensageiro Obscuro.
Outubro/2008.

Foto: Homem pensativo diante de túmulo. Imagem encontrada no Google Imagens. Sem referências encontradas.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Aventura Fantasma

A madrugada era gélida e calada,
revelava flores e folhas secas,
e poeira e parafina queimada.
Chegaram meus companheiros,
e acordamos do sono contínuo.

Saímos eufóricos de nossos túmulos,
éramos sombras entre névoas,
invadimos o sarau dos vivos.
Filósofos, escritores, músicos
e góticos foram os anfitriões.

O sarau foi em nosso mausoléu,
a alegria das artes nos seduziu.
Dois bailes paralelos seguiam
em uma só realidade!

A interseção de vivos e mortos
criou nossa aventura fantasma.
Ossos e cinzas dormem enquanto
a mortalha será nossa bandeira.


- Mensageiro Obscuro.
Maio/2008.


Foto: Arte tumular de algum cemitério. Referências não encontradas.